O olhar certeiro de Antonio Prata

(Foto de Tomás Rangel)

Foto de Tomás Rangel

Muita gente já escreveu sobre a crônica e até agora não chegamos a conclusões muito sólidas. Parece que, às vezes, o gênero faz questão de driblar os teóricos e reinventar-se, adaptando-se a diferentes situações. Filha do jornal com a literatura, alguns consideram que puxou o pai e é, como ele, fadada ao esquecimento. Outros apontam que não é bem por aí, que a mãe teve um papel forte em sua criação e que a crônica pode resistir ao tempo quando flerta com a poesia, por exemplo, transformando-se em algo maior. A verdade é que, desde sempre, poucos tiveram essa capacidade, e talvez por isso muitos digam que a crônica literária corre risco de extinção com tantos primos distantes se apossando de seus espaços, inclusive de seu nome – são os editoriais, as reportagens, os diários, as colunas sociais, as crônicas esportivas etc., gêneros aparentados, mas só do lado paterno; sem nenhum fôlego literário.

Mais otimista, prefiro não montar um dos cavalos do apocalipse – que procriaram e hoje são mais de quatro – e sair anunciando o fim da crônica. Pelo contrário: eu a vejo ainda saudável, com terra nova e fértil pra cultivar. O argumento principal dos que a vêem claudicando é que há algumas décadas a crônica era exercida por muitos dos grandes nomes da nossa literatura e tinha espaço em todos os grandes veículos impressos. Dizem que, atualmente, a crônica perde tanto em número quanto em qualidade, mas eu me pergunto se essa sensação não estaria um pouco condicionada pelo tempo. Vendo as excelentes coletâneas dessa época passada, tem-se a injusta impressão de que não chegaremos lá, com tanta bobagem que é publicada atualmente. Mas é preciso ter calma e entender que isso a que temos acesso é o que sobreviveu à infalível peneira do tempo, são as pedras lapidadas. Pois o que não prestava dos jornais de antigamente já forrou muita gaiola, e hoje não resta nem uma pontinha reciclada daquela celulose. O mesmo acontecerá no futuro – todos esses que aí estão atravancando nosso caminho, eles passarão – de modo que a peteca não cairá tão cedo.

Do argumento contrário ao qual me referi, há um ponto inquestionável, que é o numérico: atualmente, não há tantos cronistas em atividade. Acho que os inquietos do coração, ótimos cronistas em potencial, agora têm muitas outras possibilidades para aplacar a alma. Mas o ponto sobre a qualidade é refutável: temos ótimos cronistas já maduros que não devem nada às gerações passadas – com exceção feita a Rubem Braga, claro, que é um acontecimento insuperável. Pra reforçar essa já sólida linha de frente, vejo se aproximar um valoroso pelotão de gente jovem (ou apenas mais jovem, em alguns casos). Sobre esse grupo, gostaria de dedicar um texto exclusivo, mais detido, de modo que, para evitar que este aqui vire uma tese de mestrado, vou me limitar a falar de apenas um deles: Antonio Prata – que na verdade nem é tão novo assim, pois escreve profissionalmente há mais de dez anos.

Antonio tem à disposição muitos dos ingredientes da crônica. Não cairei na tentação de listar as características que um cronista deve ter, mas estar atento às coisas em volta é condição essencial e por isso mesmo primária. Sem o olhar curioso e ligeiro que percebe detalhes das situações, acho que não é possível fazer crônica. É esse tato apurado que, aliado à capacidade técnica do escritor, vai garantir a malemolência do texto, que vai dar a ele o ritmo e o tom necessários pra ganhar ares de conversa franca, de papo furado, de prosa informal. Eu estaria me repetindo em vão ao dizer que Antonio Prata tem essa intuição de artista, mas acontece que ela foi posta à prova e quero relatar o fato: certa vez, convidei Antonio, Humberto Werneck e o professor Augusto Massi para um evento na Universidade de São Paulo. Era uma homenagem ao centenário de Rubem Braga, e por isso mesmo achei que convinha tocar a mesa em caixa baixa – não combina palestrar sobre crônica cheio de pompa. Tinha que ser meio de improviso, e uma maneira de me preparar para isso era estar despreparado. Sem resumos ou pesquisas, eu conduziria a conversa ao rés-do-chão. De última hora, no entanto, o mediador inexperiente sentiu o calafrio da responsabilidade e convocou todos para uma conversa. Sentamos os quatro para apertar parafusos e combinar alguns sinais, que conduziriam nossas encenações de acordo com o retorno da plateia, que, invariavelmente, ou boceja ou endireita a coluna pra prestar atenção.

Antonio, Humberto, eu e Augusto

Antonio, Humberto, eu e Augusto (Foto de Milena Varallo)

Humberto, entrevistador de vasta experiência, estava me passando uns truques quando uma mulher pediu licença, interrompeu o comitê, me desejou boa sorte e disse que já ia pro local, para garantir uma boa cadeira. Terminada a brevíssima digressão, Antonio sorriu e disse “Pode deixar, Guilherme, já entendi tudo. Eu vou me guiar por essa menina. Enquanto ela estiver sorrindo, sei que posso continuar falando. Se começar a mexer no celular, eu passo a bola”. Pois vejam só: Antonio propôs usá-la como referência porque percebeu que eu estava apaixonado por ela, antes de eu mesmo ter me dado conta disso. Enquanto em mim os sentimentos se confundiam, para o cronista já estava tudo muito claro.

Qualquer pessoa poderia ter chegado à mesma conclusão se eu tivesse declarado alguma obviedade ou começado a babar em estado catatônico, trocando substantivos comuns pelo nome dela. Mas só um exímio observador conseguiria desvendar o caso em segundos, tendo como pista apenas alguns gestos pequenos – o toque das mãos, o olhar perdido, o sorriso meio bobo e o breve suspiro que devo ter confessado quando ela virou as costas.

Outro dia, num restaurante com amigos, esperávamos o garçom quando um dos nossos chegou com o jornal aberto e disse: “nasceu a filha do Antonio Prata”. A crônica sobre Olivia foi passando de mão em mão, e, depois da leitura geral, começamos a debatê-la – afinal, é isso que os estudantes de Letras fazem enquanto a cerveja não chega.

O placar final foi uma goleada favorável, mas uma das bolas acertou a trave: “o Antonio tem uma estrutura repetitiva”, disse um deles. Na hora, pensei que, de fato, um dos maiores desafios do cronista é driblar alguns clichês que costumam se oferecem facilmente pra encerrar uma crônica. Acabei concordando, mas quis entender melhor. O goleiro adversário disse que Prata tem um esquema predileto, que é, a certa altura do texto, fazer um movimento em direção oposta à realidade, em ritmo crescente. Como ilustração, leu em voz alta o trecho da citada crônica em que o pai cola a boca na barriga da mãe e fala ao bebê sobre “o sol, a praia e a cachoeira, a girafa, o pinguim e o canguru, o doce de leite, a manga e o leitão, Toy Story 1, 2 e 3”. Em suma, disse que na caminhada rumo ao absurdo, o cronista vai muito longe e tropeça. Isso é, na frase acima, a partir de “manga”, os elementos citados causam desconcerto no leitor, porque não são coisas do universo dos bebês. O mesmo acontece quando Bill Clinton e Moraes Moreira aparecem numa frase iniciada com “você” e “sua mãe”. Esse recorrente processo esquemático, concluiu meu amigo, funciona como um ralo para a crônica, por onde se esvai a arte. Eu ia respondê-lo, mas a comida veio junto com a conclusão, e a fome falou mais alto.

Mais tarde, com a ideia cozinhando na cabeça, cheguei à conclusão que essa pequena escalada absurda não é ralo nenhum. Não é um esquema, pois sua finalidade não está nela mesmo; nem é mecânica, porque costuma vir dosada e na hora certa. É apenas mais uma das artimanhas do cronista, que leva o leitor na lábia até a beira do precipício e faz que vai se jogar, pra em seguida segurá-lo pela mão e dizer “calma, não é nada disso”, reconduzindo-o em segurança à normalidade. Talvez seja a essa manha que Davi Arrigucci Jr. tenha se referido quando disse que Antonio Prata é “um notável cronista do absurdo, das miudezas malucas do cotidiano”.

Vejo esse recurso mais como marca autoral, um tipo de assinatura que se detecta na obra. Não quero ficar teorizando sobre processos criativos, mas há uma diferença entre algo que é mecânico e algo que não é. Não é preciso dizer, por exemplo, que aquela melodia é do Tom Jobim. Isso a gente já sabe, intuitivamente. Assim, os primeiros acordes nos remetem não apenas a uma agradável combinação de notas, mas ao universo particular de Tom. O lado “artificial” se nota em algumas das letras dadas a essas melodias na época da Bossa Nova, por exemplo. Muitas vezes, evocar a mulher, o amor, o sorriso e a flor pode ser apenas uma solução prática, e por isso vazia de sentido poético.

Não é o caso de Antonio Prata, definitivamente. Na última edição da revista Piauí, o jornalista Mario Sergio Conti publicou um perfil a respeito do cronista. Lá pras tantas, Conti enumera algumas dificuldades que estariam se impondo à crônica atualmente – a crise da imprensa, a internet, a televisão. Não concordo com elas e, como já disse, acho que a crônica está na contramão da imprensa, retomando seu espaço e seu prestígio de décadas atrás. Mas o que me incomodou mesmo foi esse esforço vão de assombrar o autor, como se fosse um falso amigo que quer aconselhar, pero no mucho: “olha, não faça romances, não continue se metendo com a televisão”. Parece uma armadilha. Eu espero que essa semente não vingue, pra mais adiante ninguém querer dizer que Antonio Prata é o cronista da televisão, que seu romance é uma crônica gigante ou maldades similares.

Trata-se, afinal, de um artista maior do que sua assinatura. Não morrerá sufocado, preso ao lugar-comum que criou, embora parte da crítica se esforce para etiquetar tudo, mesmo quando não convém. Esses são os ingênuos. Os mesmos ingênuos que reduzem Van Gogh a “pintor do amarelo”, porque não entendem que o amarelo de suas telas é muito mais do que um pigmento, transbordando qualquer noção de cor – ainda que alguma loja de tintas venda latas de “Amarelo Van Gogh”.

É por isso que Antonio Prata não ficará como o cronista do pequeno absurdo, o cronista da classe média, o cronista meio intelectual, meio de esquerda; mas ficará, com certeza, como o cronista dessa geração.

p.s.: Antonio, não deu certo com a menina; como você sabe, existem os outros.

Taubaté, 19 de julho de 2013

EU ME REFERI…

… ao “Poeminho do contra”, de Mário Quintana.

… à crônica “Sobe o pano”, do Antonio Prata, publicada na Folha de S. Paulo.

… à crônica “Os outros”, do Antonio Prata, publicada no Estado de S. Paulo.

… à orelha do livro “Meio intelectual, meio de esquerda”, escrita pelo professor Davi Arrigucci Jr.

… ao ensaio “A vida ao rés-do-chão”, escrito em 1980 pelo professor Antonio Candido, ainda uma das melhores páginas teóricas sobre a crônica.

… a Humberto Werneck, escritor, jornalista e cronista dominical do Estadão, autor da coletânea “Boa companhia: crônicas”.

… a Augusto Massi, professor de literatura brasileira da USP, que organizou o livro “Retratos parisienses”, com textos do velho Braga.

… ao perfil “No epicentro da barafunda”, que o jornalista Mário Sérgio Conti escreveu sobre Antonio Prata, pra revista Piauí.

E, por fim, tenho a impressão de que essa interpretação do amarelo foi Sartre quem fez, quando disse que, nas telas de Van Gogh, o amarelo já não era amarelo, era melancolia.

Agradeço a Guilherme Magalhães e a Claudio Leal por me arrumarem a matéria da Piauí.