Confusões literárias: Guilherme de Assis, Clarice Tauil e os três Rubens

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Eu devia ter uns quinze anos quando comecei a ler Machado de Assis pra valer, ainda com pouco gosto pela literatura. Naturalmente, eu não tinha maturidade suficiente para lidar com o texto, de modo que só compreendi o que me foi dado, o que estava à vista – o que é fatal para a leitura da prosa machadiana. Talvez fosse pensando um pouco nisso que Mário de Andrade costumava dizer que só se devia ler Machado depois dos trinta. Quase nada ficou dessa primeira leitura, portanto, mas o contato valeu pelo furor que senti: eu não entendia muito bem, mas sabia que diante de mim estava algo muito grande. Senti que era preciso difundir essa literatura, e, levantando a bandeira, decidi juntar todos os contos do homem num só blog, que ainda existe. Para minha surpresa, ele continua sendo bastante acessado, e vez ou outra recebo notificação de comentários – não costumo lê-los, porque são sempre muito genéricos, mas tive a sorte de não deixar passar as palavras de um distinto e anônimo senhor inglês, que disse ter ficado encantado com o texto, mesmo entendendo pouco a língua. Despedindo-se, me perguntou em tom de animada sugestão se não seria o caso de eu, Machado de Assis, juntar meus contos e publicar um livro. Seria um sucesso, garantiu. Esse deve ser o primeiro caso de um inglês que caiu no conto do Machado.

*

Meu exemplar de "Freedom".

Meu exemplar de “Freedom”

Sou um assíduo frequentador da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty. Não perco uma há oito anos – considerem esse número ser praticamente metade da minha vida. Em 2012, Jonathan Franzen, badalado escritor americano, andou palestrando por lá. Fatalmente, perguntaram a ele quais autores brasileiros já tinha lido – parece que essa é a nossa pergunta preferida de se fazer aos gringos. Depois de citar três nomes, Franzen lamentou nos ler tão pouco e pediu que o público sugerisse bons escritores nacionais. Como de praxe, terminada a palestra, dirigiu-se à mesa de autógrafos para atender a imensa fila de fãs. Por mera coincidência (não sou exatamente um bom leitor de “Liberdade”), eu era um dos primeiros da fila e me achei no direito de sugerir-lhe algo. Clarice Lispector, pensei, seria uma boa pedida. Arrumei um pedacinho mínimo de papel, onde escrevi “Clarice L.” e entreguei a ele. Mas Franzen, numa pressa muito americana, não me deu a chance de explicar que o “Lispector” tinha ficado de fora por falta de espaço e assinou logo meu exemplar de “Liberdade”, dedicando-o à Clarice. E foi assim que, jamais tendo publicado um conto, eu virei Clarice Lispector e entrei para a história da literatura. Ser Clarice dói menos do que parece, acreditem.

*

Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Para seus padrões interioranos, Taubaté é uma cidade com bons sebos. É de meu costume fazer um circuito por eles quando retorno à terrinha para as férias, para ver o que chegou enquanto estive fora. Às vezes, encontro raridades por um preço que chega a ser um insulto – quinze reais pelo primeiríssimo compacto do Chico Buarque, por exemplo. Não existe, por lá, ninguém que saiba muito bem o que está vendendo. Livro é livro. Assim, pedi a todos os sebistas taubateanos que me separassem tudo que tivessem de Rubem Braga. Alguns dias depois, passei recolhendo minhas encomendas, numa caminhada que termina no mercado municipal, imundo e caótico, exatamente como convém. No meu ponto de chegada, que é o sebo do seu Dito, perguntei pelos livros do velho Braga. Dito, um senhorzinho que disfarça a gagueira com um vasto bigode, me apontou uma pilha de livros no balcão. “Separei para você!”, disse, muito satisfeito. Eram todos títulos de Rubem Fonseca. Achei graça na confusão e a comuniquei ao seu Dito, que se justificou, dizendo que era quase a mesma coisa, e insistiu no erro, perguntando se não servia não. Educadamente expliquei que são autores muito diferentes, e que precisava mesmo era do Braga. Em desaprovação, seu Dito balançou a cabeça e sumiu, lentamente, pelo corredor de enciclopédias e dicionários. Alguns minutos depois, voltou assobiando com um livro na mão. Tratava-se de um Rubem Alves antiguinho, mas em bom estado, que eu não consegui recusar.