Rubem Braga versificado

rubem braga

A crônica, sabemos, é um gênero que flerta com a poesia. Muitas são, na verdade, poemas em prosa. Sobra lirismo nesse pedacinho subjetivo do jornal. Prova disso são estes trechos de crônicas de Rubem Braga, também autor de um livro de poemas, quebradas em versos. Não deve nada aos seus poetas contemporâneos. A brincadeira foi feita no número 816 do Suplemento Literário de Minas Gerais. Só melhorei e modernizei um pouco a métrica, basicamente.

*

Não mais aflitos
(crônica de Um pé de milho, maio de 1946)

Vamos agradecer a brisa
na cara suada;
a mulher
com luz nos olhos;
o menino, a onda,
o pássaro, o chão.

O bom chão;
dormir no chão.

Morrer,
descansar no bom
úmido chão,
não mais imprudentes,
não mais aflitos,
não mais aflitos!

 *

Ao crepúsculo, a mulher…
(crônica de A traição das elegantes, abril de 1956, originalmente publicada com o título de “Momento”)

Não,
Deus não tem facilidade de desenhar.

Ele faz e refaz
sem cessar
Suas figuras,
porque o erro
e a desídia dos homens
entorpecem Sua mão:
de geração em geração,
que longa paciência Ele não teve
para juntar a essa linha do queixo
essa orelha breve,
para firmar bem a polpa da panturrilha.

Sim,
foi a própria mão divina
em um momento difícil
e feliz.

Depois Ele disse: anda…
E ela começou a andar
entre os humanos.

Agora está aqui
entardecendo;

A brisa em seus cabelos
pensa melancolias.

As unhas são rubras;
os cabelos também ela os pintou;
é uma mulher de nosso tempo
mas neste momento,
perto do mar,
é menos uma pessoa
que um sonho de onda,
fantasia de luz
entre nuvens,
avideusa
trêmula,
evanescente
e eterna.

Mas para que
despetalar palavras tolas
sobre sua cabeça?
Na verdade
não há o que dizer;
apenas olhar,
olhar como quem reza,
e depois,
antes que a noite desça de uma vez,
partir.

*

Às duas da tarde de domingo
(crônica de A traição das elegantes, setembro de 1957, originalmente publicada com o título de “Sobre um momento”)

mas quero que saibas
que te vejo apenas como
eras naquele momento,
teu corpo ainda molhado
do mar às duas da tarde;

e milhares,
milhões de relógios
eternamente trabalhando
contra nós
nos bolsos,
nos pulsos,
nas paredes,
todos cessaram de se mover
porque naquele momento
eras bela e pura
como uma deusa
e eras minha eternamente;
eternamente.

Naquele edifício
daquela rua,
naquele apartamento,
entre aquelas paredes
e aquele feixe de sol,
eternamente.

Além das nuvens,
além dos mares,
eternamente,
às duas da tarde
de domingo
eternamente.

Os cães engarrafados

(Este ensaio foi publicado na terceira edição da Cisma, revista de crítica literária e tradução feita pelos alunos da graduação do curso de Letras/USP, cujo conteúdo está disponível no www.revistacisma.com)

RB e VM

“Nunca vi boa amizade nascer em leiteria – o uísque é o melhor amigo do homem.
Uísque é o cachorro engarrafado”
(Vinicius de Moraes)

Rubem Braga e Vinicius de Moraes, cujos centenários agora se comemoram, compartilham mais que o ano de nascimento. Rubem, um de nossos maiores cronistas, foi também poeta. Vinicius, um de nossos maiores poetas, foi também cronista. Ambos exerceram postos diplomáticos, e, durante muitos anos, cultivaram uma amizade que respingou na literatura em forma de mútuas homenagens.

Entre as duas obras, existem muitos pontos convergentes. Talvez o mais notável seja o apreço às coisas efêmeras e pequenas, pelo que já foi e pelo inalcançável, pelo interior e pela simplicidade. Além da literatura, a afinidade entre os dois se evidencia também através das personalidades, que podem sugerir algum esclarecimento de questões referentes às obras: foram homens de uma generosidade atípica, que encaravam a vida de uma perspectiva humilde, numa atitude de certa leniência diante de alguns dos mistérios do mundo – mas de constante questionamento e inquietação a respeito da condição humana, seja pelo indivíduo ou pela coletividade.

Bom exemplo dessa cordialidade é o fato de que tanto Vinicius quanto Rubem foram renomados anfitriões. A casa de Vinicius de Moraes permanecia sempre aberta, sobretudo nas décadas de 50 e 60. Eram frequentes as reuniões de amigos, artistas e intelectuais, que se juntavam em saraus regados a uísque e violão. Os versos de Água de beber, parceria do poeta com Antonio Carlos Jobim em 1961, parecem dar conta desse espírito generoso: “a minha casa vive aberta/ abri todas as portas do coração”. E mais do que abrir a própria casa, Vinicius parece ter sido o responsável por desencadear um destrancamento geral de portas entre muitos artistas da cidade, que passaram a promover em suas casas reuniões musicais muito propícias àquele Rio de Janeiro que respirava uma bossa nova.

Rubem Braga, por sua vez, jamais trancava a porta de sua famosa cobertura em Ipanema, de onde se tem uma vista privilegiada do mar. Qualquer amigo que quisesse desfrutar de seu jardim suspenso sem aviso prévio, bastava pegar a escada do décimo segundo andar, empurrar a porta e servir-se de uísque. Inclusive quando o próprio cronista não estava em casa – ou, então, quando ele nem se levantava de sua rede diante da presença dos amigos. Mas, diferente da morada de Vinicius, os encontros na cobertura de Braga não eram tão festivos. Reservado e tido como mal humorado, Rubem preferia a calma das conversas, e, não raro, dos monólogos: contam que muitas vezes ele só ouvia o que os outros tinham a dizer.

E muitos dos convidados para as festas de Vinicius eram, também, frequentadores da cobertura, pois ambos participavam da mesma turma de boêmios e intelectuais que se encontrava nos bares do Rio – entre eles, o Amarelinho, o Vermelhinho, o Lidador e o Westphalia. Vinicius chegou a incluí-los em uma descontraída balada que serve como ilustração do clima:

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador?

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Eles faziam parte da “turma do uísque”, talvez a mais sedenta das categorias alcóolicas dos amigos. Ferreira Gullar, por exemplo, era do pessoal do chope, e por isso não esbarrava muito com Braga, mas com Vinicius sim, que transitava por todas as categorias, sem preconceito etílico.

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Eles foram, de fato, bons bebedores. De Vinicius, em seus shows, tem-se a clara imagem do poeta escoltado por uma garrafa de uísque, que secava no decorrer da noite. Braga, por sua vez, protagonizou uma história inusitada: em seu tempo de cronista da revista Manchete, pediu aos leitores que enviassem garrafas de uísque à redação como presente de Natal. Em um ano, recebeu trinta garrafas. No outro, apenas dez. O pedido ia impresso na própria revista, ainda que seus colegas de crônica se recusassem a assinar a brincadeira: “1960! / Não sei se minh’alma aguenta! / Se o Sabino fez promessa / Pongetti não se interessa / E Paulinho tem mau fígado / Ligue ao barman e diga: do / Melhor uísque me traga / Para o Braga!”.

De modo que a epígrafe deste texto, que é uma junção de frases que Vinicius costumava dizer entre amigos, poderia perfeitamente ter sido escrita por Rubem, embora sua vida não tenha sido sempre tocada nesse ritmo.

Em 1944, alguns anos antes, Rubem Braga acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, para cobrir, como repórter, a segunda guerra mundial. Só dois anos depois, ao retornar para o Brasil, pôde ler o longo poema que Vinicius, saudoso, escrevera em sua homenagem:

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem.

Há, nessa carta-poema, todos os elementos de simplicidade cotidiana que Braga costumava retratar em suas crônicas. Vinicius brindou o amigo, “Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália”, com uma coletânea de assuntos caros ao cronista, distante do mar de Ipanema e privado de ver as moças de maiô. Em “Mensagem a Rubem Braga”, a valorização das coisas desimportantes e banais aparece como uma forma de resistir à brutalidade da guerra. Assim, quase nada há de relevante nas notícias, o que revela o espírito dessa amizade que zelava pelos detalhes da vida simples: fulana está linda, compadre está doente, Drummond tem escrito ótimos poemas, um amigo continua apaixonado, é tempo de caju e abacaxi. Até mesmo o cardápio do almoço é compartilhado.

Além disso, a partir deste poema, é possível fazer o recorte de dois grandes tópicos da obra de Rubem Braga – o deslumbre causado pela mulher e o engajamento social:

Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia)

A temática feminina é recorrente na prosa de Braga. Frequentemente prostrado enquanto vítima ou aprendiz dos “mistérios insondáveis” da mulher, o velho Braga está sempre suspirando ou sofrendo com seus relacionamentos, desejos e frustrações. De fato, Rubem foi um homem entregue às paixões, mas de uma maneira muito diferente de Vinicius, que se casou nove vezes em uma insaciável busca pelo amor – o cupido de seu segundo casamento, aliás, foi o próprio Rubem, que, menos atirado, casou-se apenas uma vez. A melancolia de amores impossíveis parece ter o acompanhado ao longo de toda sua vida.

Outro ponto latente nas crônicas de Braga é a consciência social. Logo após Vinicius ter sua tarde iluminada com o riso de uma moça, ele conta ao amigo de um menino esfomeado. Ora mais tímido, ora mais combativo, Braga nunca se esqueceu da pobreza, que assume um papel de destaque em seus textos – aliás, o tom de engajamento político dita grande parte de sua obra, ainda inédita no mercado editorial. A denúncia da miséria e a exposição da luta de classes, com a crítica ao sistema que explora os desvalidos e enriquece os patrões, contribui para uma discussão pública acerca dos socialmente excluídos, uma vez que as crônicas de Braga circulavam por jornais e revistas populares. Sua oposição ao governo, sobretudo nos anos de Getúlio Vargas, culminou na fundação do semanário Comício, antigetulista em essência, para o qual colaboraram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector (sob o pseudônimo de Teresa Quadros), Antonio Maria e Millôr Fernandes, entre outros. Vale lembrar, também, que em 1947, Braga foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, ao lado de intelectuais como, por exemplo, Antonio Candido.

Braga, Sabino e Vinicius

Braga, Sabino e Vinicius

A resposta literária de Braga ao poeta, no entanto, só viria mais tarde, quando Vinicius já morava em Los Angeles em seu primeiro posto diplomático. Rubem, poeta bissexto, escreveu-lhe Bilhete para Los Angeles. Mas diferente da saudação honrosa que recebeu do parceiro, Braga deixou transparecer o carinho viril ao qual às vezes era dada a amizade:

Tu, que te chamas Vinicius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!

Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!

Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!

Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!

Trata-se, notadamente, de uma brincadeira. O poema de escárnio tem dimensão humorística pela temática e pelo vocabulário, e acaba revelando, também, a pouca afinidade de Braga enquanto poeta. Seu único livro de poemas, Livro de Versos, muito pouco contribuiu para sua obra. Nele, nota-se falta de originalidade e uma forte influência de Manuel Bandeira e do próprio Vinicius. O que há em Braga de poético, e há muito, melhor se desenvolve na prosa. Seu lirismo se tensiona com o texto corrido, suspendendo o ritmo que difere o verso da prosa, resultando numa crônica de cunho muito híbrido entre os gêneros. Não à toa, Braga prefere frases curtas, quase como se fossem versos, carregando-as com a intensidade de cada palavra. O desprezo pelos adjetivos fortalece essa construção lírica. Muitas das crônicas de Braga parecem ser poemas que transbordaram.

O tom de cordial agressividade que se revela era recorrente entre os amigos. Certa vez, Vinicius pediu a Rubem que escrevesse o texto da contracapa de um de seus discos. Braga não escondia de ninguém o desprezo pelas letras do poeta e fazia coro, junto a João Cabral de Melo Neto, para que ele abandonasse o ofício de compositor popular e voltasse ao posto de habilidoso sonetista. Mas acabou cedendo e escreveu o texto. Assim que o recebeu, no entanto, Vinicius rasgou o papel. Com as contas acertadas, os dois saíram para beber.

Quando Vinicius compôs a letra da clássica Garota de Ipanema, Braga fez uma paródia que costumava apresentar pelos bares: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote/ Que vem e que passa/ Num pesado balanço/ A caminho do bar”.

RB, VM, PMC, CB

Vinicius, Braga, Paulo Mendes Campos e Chico Buarque

Muito adiante, já com sessenta anos completos, Vinicius voltou a homenagear o amigo, dessa vez com um soneto – do jeito que Braga gostava. Soneto do sessentenário de Rubem Braga é uma reflexão sobre a vida em decassílabos, de ritmo muito marcado pela aliteração do fonema /s/:

Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos…
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.

São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.

São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos

Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos…
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!

A ideia de vida que recorrentemente aparece na obra de Vinicius se faz notar logo na primeira estrofe: o decorrer da vida não é apenas uma marca no calendário, limitando-se a “frações de tempo” – ele traz consigo todas as marcas de sua trajetória, em “fecundos zodíacos” de tristezas e alegrias. As imagens empregadas em torno dessa concepção são todas astronômicas: zodíaco, cometas, galáxia, mundos, caos sideral, estrelas-guias, sóis. São noções que estão além do nosso próprio entendimento, que nos escapam pela distância e pela dimensão. E que, diferente dos sessentões, resistem à passagem do tempo. Aliás, nem o próprio tempo se aplica no espaço sideral com as mesmas leis que nos regem. Portanto, quando o poeta usa dessas imagens para tratar a vida, a pequenez da condição humana diante desses astros parece ser neutralizada, e o homem se engrandece.

Como se vê, a citação mútua era comum entre os amigos. Vinicius costumava fazê-la com mais frequência. Existem pelo menos mais duas de suas crônicas em que Braga recebe destaque. Em uma delas, Dia de sábado, o poeta retoma o tema da velhice e da fugacidade do tempo:

[…] Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai…

Em outra, anterior, Vinicius conta a experiência engraçada que sua irmã teve com Rubem, quando este foi tapeado por um malandro, que lhe vendeu um canário supostamente treinado para sempre retornar à gaiola. Logo na primeira oportunidade, o bichinho voou para a mata. Braga, homem da roça, sabia reconhecer todos os passarinhos que habitavam sua cobertura. Vinicius diz que chegou a se interessar por ornitologia por sua influência, mas não levou os estudos para frente. Assim como, certa vez, eles decidiram aprender carpintaria, o que, diz Vinicius, “resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura”.

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Mas a grande homenagem de Rubem Braga ao amigo, Vinicius não pôde ler. A crônica Recado de primavera, de 1980, é uma reverência póstuma ao poeta, que morrera alguns meses antes, na banheira de sua própria casa:

Meu caro Vinicius de Moraes,

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris […].

À primeira vista, Rubem parece impassível diante da ausência de Vinicius, mas é sua postura de homem retraído numa rigidez viril que não lhe permite manifestar saudades nem lamentações. Sua maneira de fazê-lo, então, é recorrer novamente aos temas que partilhavam: a natureza, as mulheres e, sobretudo, a observação do cenário urbano. Há qualquer coisa de melancólico na afirmação de que viu, sozinho, as garotas por Ipanema, onde Rubem e Vinicius costumavam pedalar juntos. Depois, sentados em algum boteco para retomar o fôlego da volta, eles observavam o movimento da cidade, com especial atenção às ciclistas. Numa dessas, nasceu a “Balada das meninas de bicicleta”, de Vinicius: “Bicicletai, meninada […]/ Solta a flâmula agitada/ Das cabeleiras em flor/ Uma correndo à gandaia/ Outra com jeito de séria/ Mostrando as pernas sem saia/ Feitas da mesma matéria”.

Escrever ao amigo, então, é um modo de reaproximá-lo, como se vivo estivesse. Em seguida, Braga toma refúgio na descrição dos passarinhos. Aos olhos de um ornitólogo amador, os tico-ticos construindo ninho são um claro sinal da chegada da primavera, que, ao destronar o inverno, carrega em si o símbolo da transformação, ainda que esta, em particular, não seja tão alegre assim. No último parágrafo, ele se despede:

O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

É curioso notar que, no desfecho, Braga até se reconcilia com a faceta de compositor do amigo. E, ao colocar-se como herdeiro de seu posto, o cronista refirma os valores humildes que os aproximavam. É como se, sem Vinicius, ele fosse o responsável por zelar pelas coisas singelas da vida, perpetuando o eco da delicadeza em suas crônicas.

Rubem Braga desempenhou sua função de guardião das ondas, dos tico-ticos e das moças em flor por mais dez anos, até dezembro de 1990, quando, vítima de uma parada respiratória consequente de um tumor na laringe que optou por não tratar, morreu num quarto de hospital, sozinho, como pedira aos amigos.

Cem anos depois, tendo sobrevivido à infalível peneira do tempo, a literatura de Rubem Braga e de Vinicius de Moraes estão presentes, porque necessárias. Mas me pergunto se, mais que isso, não seria preciso reviver certo otimismo cordial que nutriam, muitas vezes ingenuamente, para contrabalancear tantos valores opostos que imperam na sociedade — atualmente, muito mais do conde que do passarinho.

São Paulo, julho e outubro de 2013

EU ME REFERI…

… a Tom Jobim, o maior compositor do Brasil.

… a Pedro Nava, médico e escritor, conhecido por seus livros de memórias. Suicidou-se aos oitenta anos com um tiro na cabeça, numa praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

… aos cronistas Fernando Sabino, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos, colegas de Brava na Manchete.

… Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Antonio Maria e Millôr Fernandes, escritores que contribuíram, entre outros, com o semanário Comício (há, sobre isso, uma boa tese na FFLCH/USP de Samantha dos Santos Gaspar).

… Antonio Candido, crítico literário.

… Ferreira Gullar, poeta, sobre quem já escrevi aqui no site.

… aos poetas Manuel Bandeira, grande influência na obra de Braga, e João Cabral de Melo Neto.

Como referência bibliográfica, é indispensável citar os ensaios de Davi Arrigucci Jr. sobre Braga, assim como a biografia de Marco Antonio de Carvalho.

Ferreira Gullar e o osso de sua perna

(Foto de Gilson Camargo)

Foto de Gilson Camargo

Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

(Caetano Veloso)

A grande ambição do aspirante a crítico literário é, imagino, terminar um bom livro, suspirar, levantar-se da poltrona, debruçar-se na janela e sentir-se inquieto. Impregnado pelo que acabou de ler, ainda com as frases ecoando na cabeça, ele quer compartilhar com outros leitores suas descobertas e impressões, e para isso sente-se encorajado a escrever sobre a obra, numa vocação que é solitária por ofício, mas compartilhada, porque humanizante.

De modo que quando recebi meu primeiríssimo trabalho de estudos literários, fiquei empolgado, porém com medo – como convém reagir a toda grande novidade. A tarefa era analisar um poema do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar. Eu já tinha certa familiaridade com sua poesia, pois ele figurava no meu panteão de poetas prediletos; mas havia o receio de fazer uma análise, ainda que muito primária, por falta de tato – sempre fui melhor leitor de prosa. Por ser um dos poucos poemas que sei de cor, escolhi discorrer sobre “Acidente na sala”, o qual reproduzo aqui sem a formatação exata (as ferramentas do site são contra o verso livre):

movo a perna esquerda

     de mau jeito

e a cabeça do fêmur

                atrita

                com o osso da bacia

sofro um tranco

e me ouço

perguntar:

aconteceu comigo

ou com meu osso?

e outra pergunta:

     eu sou meu osso?

     ou somente a mente

que a ele não se junta?

e outra:

se osso não pergunta,

quem pergunta?

alguém que não é osso

     (nem carne)

     em mim habita?

alguém que nunca ouço

     a não ser quando

     em meu corpo

um osso com outro osso atrita?

Deixando de lado os recursos mais, digamos, primários da linguagem, como a aliteração e a rima, resta-nos ainda as inquietudes do poema – como, por exemplo, o que pode significar esse movimento de partir do mínimo (osso) para o máximo (ser). O gesto parece provocar no leitor uma angústia agridoce de saber-se parte de algo maior do que si mesmo. Se não sabemos nem dos limites do nosso próprio corpo, essa carcaça que invariavelmente apodrece, que poderemos saber do resto do universo?

Porque sim, nós somos o nosso corpo, é claro – mas nem tanto. Essa afirmação absurda pode ser pertinente se tomarmos como exemplo seu funcionamento. Que me corrijam os biólogos, mas se eu espetar o dedo em uma agulha, as plaquetas do meu sangue liberarão tromboplastina, que transformará a protrombina em trombina, capaz de agir sobre o fibrogênio para a fabricação de fibrina, proteína insolúvel que, por sua vez, irá formar uma rede para estancar o sangramento. Vejam, eu sou um mero cidadão que gosta de um pouquinho de leite em seu café, que guarda até hoje uma nota de um real na carteira, que sofre por amor e que fica melancólico durante os domingos – e ainda assim capaz das mais complexas reações químicas, sem nem ter consciência delas.

A poesia de Gullar, nesse livro especialmente, se expressa na ponte entre o ínfimo e o gigantesco, o aqui e o lá, o impossível e o improvável – o que acaba sugerindo a posição do homem neste Universo: somos heróis medíocres sem nenhuma odisseia para protagonizar. Estamos tão distantes da mosca, “cuja existência talvez dure / pouco mais de uma hora”, quanto da galáxia, “que demora 250 milhões de anos / para fazer / um giro / completo / em torno de seu eixo”. Insetos ou via láctea, pra gente tanto faz. E essa é a graça.

O incrível é que caiba poesia nesse vórtice da existência – onde uns apenas poderiam constatar tristeza e solidão. Alfredo Bosi, prefaciando o “Em alguma parte alguma”, ecoa muito propiciamente uma frase de Pascal: “Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie” (O silêncio eterno dos espaços infinitos me assusta, me disseram). Para entender um pouco melhor esses infinitos, tanto externos quanto internos ao ser, resolvi pedir uma entrevista ao próprio Gullar, que, sem saber quem eu era, me convidou para uma conversa em sua casa.

E assim fui ao Rio de Janeiro, pela segunda vez – a primeira, quase um ano antes, resumiu-se a um bate-e-volta para assistir o Fluminense empatar miseravelmente. Com apenas mochila nas costas e gravador no bolso, desci na rodoviária e liguei para um amigo, que havia concordado em ser meu guia desde que pudesse participar da entrevista. Ele me instruiu que eu o esperasse em frente ao Copacabana Palace. Assim, tomei um táxi que me cobrou o dobro para me deixar no hotel, onde havia uma multidão à espera de um tchauzinho da janela de não sei qual celebridade americana. Achei a situação patética; me pareceu muito desmedido torrar sob o sol (do Rio!) para ver o ídolo de longe.

Mesmo sem conhecer a cidade, me lembrei que perto dali havia um lugar melhor para se aguardar, e saí à procura de Carlos Drummond de Andrade. Caminhando pelo calçadão, percebi que o sotaque paulistano de meus pés apressados contrastava com o andar solto do carioca, que vai num molejo muito mais gingado, e me senti um pouco envergonhado. Talvez por isso, sentei-me ao lado da estátua de Drummond, que ouviu em silêncio tudo o que eu tinha para falar. Depois do estático esquenta literário, voltei ao Palace, onde meu amigo me esperava, e viramos na Rua Duvivier. Em frente ao nosso destino, um prédio muito velho, comuniquei a entrevista marcada ao porteiro, que apontou um interfone, onde apertei o quatro e depois o dois e esperei que uma voz rouca indagasse o “pois não”. Era o próprio Gullar, autorizando-nos a subir. No elevador, respirei fundo e encarei o espelho, pensando que todos aqueles fãs do Copacabana Palace deveriam ter inveja de mim, pois eu não só veria um ídolo como estaria protegido do sol.

O poeta nos esperava de porta aberta e, numa seca cordialidade, apertou nossas mãos e indicou as cadeiras. Murmurou qualquer coisa e sumiu na penumbra de um estreito corredor. Nesse momento, me senti inseguro, porque percebi que não estava preparado para a entrevista. Sem ter elaborado nenhuma pergunta muito boa, olhei ao redor em busca de assunto. Mas aquelas paredes abarrotadas de quadros quase sobrepostos, aquela luz muito fraca e aquele ar viciado me sufocaram. Tudo me pareceu muito sério e melancólico – com exceção da tevê ligada numa partida de tênis, que me fez rir porque imaginei Gullar, fã de esportes, praticando sua ginástica diária. Do breu, o poeta ressurgiu a passos largos e sentou-se diante de nós.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto do André Cruz.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto de André Cruz.

Solícito, conversamos por quase duas horas a respeito de sua carreira (começou com versos alexandrinos), da influência de outros poetas (descobriu com Drummond que letras de macarrão cabem na poesia), de artes visuais (detesta as vanguardas que expõem larva de mosca no museu, vazias de significado), de amor (uma namorada russa que teve que esquecer), de política (envelheceu à direita, sem dúvida), de música (levou vinte anos e vinte minutos para botar letra em “O trenzinho do caipira”), de literatura (relê muito mais do que lê) e de sua produção (a divisão das páginas de sua obra completa pelos anos de atividade é algo perto de dez páginas por ano).

Percebi que Gullar insistia em alguns temas, bastante presentes em sua obra, sobretudo no “espanto” – que é uma tradução que encontrou para a surpresa, o inesperado, as infinitas possibilidades e probabilidades da vida. É esse o maior combustível de sua poesia, costuma dizer. Lembro-me especialmente de “Abduzido”, que nasceu quando o poeta, levantando-se de madrugada, acendeu a luz do banheiro e viu o próprio rosto no espelho: “deparo-me / comigo / em frente a mim / como se fosse um outro: / estarei noutro?”. Das coisas mais banais brotam profundas indagações. A repentina descoberta da própria cara, a mesma desde sempre, é ponto de partida para questões existenciais presentes em todo o livro, não por descuidada repetição, mas por curiosa e inesgotável investigação. Afinal, um homem passa mesmo a vida escrevendo sobre dois ou três assuntos – são os temas que o espantam até o fim – e o resto é pura distração.

São Paulo, 3 de agosto de 2013

EU ME REFERI…

… À canção “Livros”, de Caetano Veloso, que me serviu de epígrafe.

… Aos poemas “Acidente na sala”, “O tempo cósmico” e “Abduzido” do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar.

… Ao prefácio de Alfredo Bosi, crítico literário, para o mesmo livro.

… A André Cruz, meu guia carioca e mestre em literatura brasileira e teorias da literatura pela UFF.

… A Carlos Drummond de Andrade, poeta que vocês conhecem muito bem.

… A Blaise Pascal, filósofo francês.

Agradeço a Guilherme Chaves por me emprestar o livro e a Camille Lohmeyer pela tradução.