A história da Editora do Autor, por Rubem Braga

Vinicius de Moraes, Fernando Sabino e Rubem Braga autografam livros em Vitoria, no projeto Encontro marcado_jpg

A Editora do Autor é um marco na história editorial do Brasil. Traduziu Jean-Paul Sartre e apostou em Salinger com seu O apanhador no campo de centeio, recusado pela Civilização Brasileira. Levou lá pra cima o nível das antologias poéticas. Seu feito mais importante, porém, foi dar à crônica a possibilidade de inserir-se de vez no mercado. Foi a editora mais importante para a estruturação do gênero em livro. Recupero crônica de Rubem Braga sobre os bastidores da editora, publicada na Manchete de 01/10/60.

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Confissões de um jovem editor, por Rubem Braga

Quando meu amigo Juca fundou o “Juca’s Bar”, fiz uma crônica meio alegre meio triste dizendo que o Juca tinha passado para o outro lado do balcão.

Sinto-me um pouco assim agora, virando editor. Certamente nem por isso deixarei de escrever, como o Juca não deixou de tomar seu uísque.

Esse negócio da Editora do Autor (será negócio mesmo?) nasceu de uma conversa minha com Fernando Sabino e outra dele com o Dr. Walter Acosta, autor de um Processo Penal e outras obras jurídicas. Éramos três autores e nenhum de nós tinha queixa de seu editor – muito menos eu, que sou amigo de José Olympio desde o tempo em que ele só tinha livraria em São Paulo. Mas achamos que editando nós mesos nossos livros poderíamos ganhar mais que os tradicionais 10 por cento sobre o preço de capa – e sobretudo editar quanto e quando nos desse na telha. Começaríamos por editar nossos próprios livros; logo acertamos mais dois, de dois amigos do peito, Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Os leitores estão vendo que aí estão três cronistas da Manchete; e se não convidamos o Henrique Pongetti, foi apenas porque os Pongetti também são editores (Gostou do também, Rogério?).

Os amigos Vinicius e Mendes Campos entram como sócios de emergência, pois financiarão apenas seus próprios livros; o poeta lançará a segunda edição (aumentada) de sua Antologia, e Paulo fará um livro de crônicas – O cego de Ipanema, incluindo suas melhores crônicas aparecidas em Manchete. Eu farei um novo livro de crônicas – Ai de ti, Copacabana! e Fernando uma seleção de suas histórias sob o título O homem nu.

Os quatro livros serão lançados em fins de outubro em uma tarde conjunta de autógrafos, e como não confiamos muito em nossa capacidade de atrair público (a não ser o Vinicius, que toca violão e faz samba) estamos pedindo a ajuda de alguns artistas. Caymmi e Bonfá já toparam, o que não é dizer pouco. É possível que nós quatro, auto-editados ou auto-editores, façamos o mesmo movimento em outras praças do País, a começar por São Paulo.

Mas quando tudo isso estava combinado apareceu Jean-Paul Sartre; encontrei-me com ele na Bahia e falei na possibilidade de publicar em livro suas reportagens sobre a revolução de Cuba que estavam saindo em jornais brasileiros. Jorge Amado opinou a favor, eu me entendi com a Prensa Latina, Sartre fez questão absoluta de abrir mão de seus direitos autorais (é o autor ideal!) e mobilizando vários amigos tradutores e botando a gráfica do bom Borsoi em regime de emergência, fizemos em 7 dias a tradução, o livro e o lançamento do livro no Super Shopping Center, em Copacabana!

Foi uma virada terrível; mas o fato é que agora já nos sentimos editores. Queremos avisar aos jovens autores incompreendidos que eles devem procurar o José Olympio ou o Ênio da Civilização, ou a Globo – enfim, os editores tradicionais, que já têm capital bastante para arriscar em livros de talentos novos. Nós ainda não podemos. Em todo caso estudaremos com prazer qualquer proposta de livro, e pediremos o parecer da Comissão Consultiva para isso designada: o premier Lumumba, o Presidente Kasavubu e o Coronel Mobutu. As decisões favoráveis devem ser tomadas por unanimidade…

O leitor dirá que tudo isso está cheirando a propaganda comercial. Que fazer, se virei homem de negócios? Qualquer reserva para livraria ou pedido para reembolso postal deve ser dirigido à Editora do Autor, Rua Araújo Porto Alegre, 70, grupo 413, Rio, telefone 42-9421. (Achei meio exagerado chamar aquelas salinhas de “grupo”, mas o Acosta disse que isso dá boa impressão no interior).

Os cães engarrafados

(Este ensaio foi publicado na terceira edição da Cisma, revista de crítica literária e tradução feita pelos alunos da graduação do curso de Letras/USP, cujo conteúdo está disponível no www.revistacisma.com)

RB e VM

“Nunca vi boa amizade nascer em leiteria – o uísque é o melhor amigo do homem.
Uísque é o cachorro engarrafado”
(Vinicius de Moraes)

Rubem Braga e Vinicius de Moraes, cujos centenários agora se comemoram, compartilham mais que o ano de nascimento. Rubem, um de nossos maiores cronistas, foi também poeta. Vinicius, um de nossos maiores poetas, foi também cronista. Ambos exerceram postos diplomáticos, e, durante muitos anos, cultivaram uma amizade que respingou na literatura em forma de mútuas homenagens.

Entre as duas obras, existem muitos pontos convergentes. Talvez o mais notável seja o apreço às coisas efêmeras e pequenas, pelo que já foi e pelo inalcançável, pelo interior e pela simplicidade. Além da literatura, a afinidade entre os dois se evidencia também através das personalidades, que podem sugerir algum esclarecimento de questões referentes às obras: foram homens de uma generosidade atípica, que encaravam a vida de uma perspectiva humilde, numa atitude de certa leniência diante de alguns dos mistérios do mundo – mas de constante questionamento e inquietação a respeito da condição humana, seja pelo indivíduo ou pela coletividade.

Bom exemplo dessa cordialidade é o fato de que tanto Vinicius quanto Rubem foram renomados anfitriões. A casa de Vinicius de Moraes permanecia sempre aberta, sobretudo nas décadas de 50 e 60. Eram frequentes as reuniões de amigos, artistas e intelectuais, que se juntavam em saraus regados a uísque e violão. Os versos de Água de beber, parceria do poeta com Antonio Carlos Jobim em 1961, parecem dar conta desse espírito generoso: “a minha casa vive aberta/ abri todas as portas do coração”. E mais do que abrir a própria casa, Vinicius parece ter sido o responsável por desencadear um destrancamento geral de portas entre muitos artistas da cidade, que passaram a promover em suas casas reuniões musicais muito propícias àquele Rio de Janeiro que respirava uma bossa nova.

Rubem Braga, por sua vez, jamais trancava a porta de sua famosa cobertura em Ipanema, de onde se tem uma vista privilegiada do mar. Qualquer amigo que quisesse desfrutar de seu jardim suspenso sem aviso prévio, bastava pegar a escada do décimo segundo andar, empurrar a porta e servir-se de uísque. Inclusive quando o próprio cronista não estava em casa – ou, então, quando ele nem se levantava de sua rede diante da presença dos amigos. Mas, diferente da morada de Vinicius, os encontros na cobertura de Braga não eram tão festivos. Reservado e tido como mal humorado, Rubem preferia a calma das conversas, e, não raro, dos monólogos: contam que muitas vezes ele só ouvia o que os outros tinham a dizer.

E muitos dos convidados para as festas de Vinicius eram, também, frequentadores da cobertura, pois ambos participavam da mesma turma de boêmios e intelectuais que se encontrava nos bares do Rio – entre eles, o Amarelinho, o Vermelhinho, o Lidador e o Westphalia. Vinicius chegou a incluí-los em uma descontraída balada que serve como ilustração do clima:

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador?

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Eles faziam parte da “turma do uísque”, talvez a mais sedenta das categorias alcóolicas dos amigos. Ferreira Gullar, por exemplo, era do pessoal do chope, e por isso não esbarrava muito com Braga, mas com Vinicius sim, que transitava por todas as categorias, sem preconceito etílico.

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Eles foram, de fato, bons bebedores. De Vinicius, em seus shows, tem-se a clara imagem do poeta escoltado por uma garrafa de uísque, que secava no decorrer da noite. Braga, por sua vez, protagonizou uma história inusitada: em seu tempo de cronista da revista Manchete, pediu aos leitores que enviassem garrafas de uísque à redação como presente de Natal. Em um ano, recebeu trinta garrafas. No outro, apenas dez. O pedido ia impresso na própria revista, ainda que seus colegas de crônica se recusassem a assinar a brincadeira: “1960! / Não sei se minh’alma aguenta! / Se o Sabino fez promessa / Pongetti não se interessa / E Paulinho tem mau fígado / Ligue ao barman e diga: do / Melhor uísque me traga / Para o Braga!”.

De modo que a epígrafe deste texto, que é uma junção de frases que Vinicius costumava dizer entre amigos, poderia perfeitamente ter sido escrita por Rubem, embora sua vida não tenha sido sempre tocada nesse ritmo.

Em 1944, alguns anos antes, Rubem Braga acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, para cobrir, como repórter, a segunda guerra mundial. Só dois anos depois, ao retornar para o Brasil, pôde ler o longo poema que Vinicius, saudoso, escrevera em sua homenagem:

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem.

Há, nessa carta-poema, todos os elementos de simplicidade cotidiana que Braga costumava retratar em suas crônicas. Vinicius brindou o amigo, “Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália”, com uma coletânea de assuntos caros ao cronista, distante do mar de Ipanema e privado de ver as moças de maiô. Em “Mensagem a Rubem Braga”, a valorização das coisas desimportantes e banais aparece como uma forma de resistir à brutalidade da guerra. Assim, quase nada há de relevante nas notícias, o que revela o espírito dessa amizade que zelava pelos detalhes da vida simples: fulana está linda, compadre está doente, Drummond tem escrito ótimos poemas, um amigo continua apaixonado, é tempo de caju e abacaxi. Até mesmo o cardápio do almoço é compartilhado.

Além disso, a partir deste poema, é possível fazer o recorte de dois grandes tópicos da obra de Rubem Braga – o deslumbre causado pela mulher e o engajamento social:

Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia)

A temática feminina é recorrente na prosa de Braga. Frequentemente prostrado enquanto vítima ou aprendiz dos “mistérios insondáveis” da mulher, o velho Braga está sempre suspirando ou sofrendo com seus relacionamentos, desejos e frustrações. De fato, Rubem foi um homem entregue às paixões, mas de uma maneira muito diferente de Vinicius, que se casou nove vezes em uma insaciável busca pelo amor – o cupido de seu segundo casamento, aliás, foi o próprio Rubem, que, menos atirado, casou-se apenas uma vez. A melancolia de amores impossíveis parece ter o acompanhado ao longo de toda sua vida.

Outro ponto latente nas crônicas de Braga é a consciência social. Logo após Vinicius ter sua tarde iluminada com o riso de uma moça, ele conta ao amigo de um menino esfomeado. Ora mais tímido, ora mais combativo, Braga nunca se esqueceu da pobreza, que assume um papel de destaque em seus textos – aliás, o tom de engajamento político dita grande parte de sua obra, ainda inédita no mercado editorial. A denúncia da miséria e a exposição da luta de classes, com a crítica ao sistema que explora os desvalidos e enriquece os patrões, contribui para uma discussão pública acerca dos socialmente excluídos, uma vez que as crônicas de Braga circulavam por jornais e revistas populares. Sua oposição ao governo, sobretudo nos anos de Getúlio Vargas, culminou na fundação do semanário Comício, antigetulista em essência, para o qual colaboraram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector (sob o pseudônimo de Teresa Quadros), Antonio Maria e Millôr Fernandes, entre outros. Vale lembrar, também, que em 1947, Braga foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, ao lado de intelectuais como, por exemplo, Antonio Candido.

Braga, Sabino e Vinicius

Braga, Sabino e Vinicius

A resposta literária de Braga ao poeta, no entanto, só viria mais tarde, quando Vinicius já morava em Los Angeles em seu primeiro posto diplomático. Rubem, poeta bissexto, escreveu-lhe Bilhete para Los Angeles. Mas diferente da saudação honrosa que recebeu do parceiro, Braga deixou transparecer o carinho viril ao qual às vezes era dada a amizade:

Tu, que te chamas Vinicius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!

Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!

Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!

Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!

Trata-se, notadamente, de uma brincadeira. O poema de escárnio tem dimensão humorística pela temática e pelo vocabulário, e acaba revelando, também, a pouca afinidade de Braga enquanto poeta. Seu único livro de poemas, Livro de Versos, muito pouco contribuiu para sua obra. Nele, nota-se falta de originalidade e uma forte influência de Manuel Bandeira e do próprio Vinicius. O que há em Braga de poético, e há muito, melhor se desenvolve na prosa. Seu lirismo se tensiona com o texto corrido, suspendendo o ritmo que difere o verso da prosa, resultando numa crônica de cunho muito híbrido entre os gêneros. Não à toa, Braga prefere frases curtas, quase como se fossem versos, carregando-as com a intensidade de cada palavra. O desprezo pelos adjetivos fortalece essa construção lírica. Muitas das crônicas de Braga parecem ser poemas que transbordaram.

O tom de cordial agressividade que se revela era recorrente entre os amigos. Certa vez, Vinicius pediu a Rubem que escrevesse o texto da contracapa de um de seus discos. Braga não escondia de ninguém o desprezo pelas letras do poeta e fazia coro, junto a João Cabral de Melo Neto, para que ele abandonasse o ofício de compositor popular e voltasse ao posto de habilidoso sonetista. Mas acabou cedendo e escreveu o texto. Assim que o recebeu, no entanto, Vinicius rasgou o papel. Com as contas acertadas, os dois saíram para beber.

Quando Vinicius compôs a letra da clássica Garota de Ipanema, Braga fez uma paródia que costumava apresentar pelos bares: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote/ Que vem e que passa/ Num pesado balanço/ A caminho do bar”.

RB, VM, PMC, CB

Vinicius, Braga, Paulo Mendes Campos e Chico Buarque

Muito adiante, já com sessenta anos completos, Vinicius voltou a homenagear o amigo, dessa vez com um soneto – do jeito que Braga gostava. Soneto do sessentenário de Rubem Braga é uma reflexão sobre a vida em decassílabos, de ritmo muito marcado pela aliteração do fonema /s/:

Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos…
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.

São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.

São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos

Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos…
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!

A ideia de vida que recorrentemente aparece na obra de Vinicius se faz notar logo na primeira estrofe: o decorrer da vida não é apenas uma marca no calendário, limitando-se a “frações de tempo” – ele traz consigo todas as marcas de sua trajetória, em “fecundos zodíacos” de tristezas e alegrias. As imagens empregadas em torno dessa concepção são todas astronômicas: zodíaco, cometas, galáxia, mundos, caos sideral, estrelas-guias, sóis. São noções que estão além do nosso próprio entendimento, que nos escapam pela distância e pela dimensão. E que, diferente dos sessentões, resistem à passagem do tempo. Aliás, nem o próprio tempo se aplica no espaço sideral com as mesmas leis que nos regem. Portanto, quando o poeta usa dessas imagens para tratar a vida, a pequenez da condição humana diante desses astros parece ser neutralizada, e o homem se engrandece.

Como se vê, a citação mútua era comum entre os amigos. Vinicius costumava fazê-la com mais frequência. Existem pelo menos mais duas de suas crônicas em que Braga recebe destaque. Em uma delas, Dia de sábado, o poeta retoma o tema da velhice e da fugacidade do tempo:

[…] Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai…

Em outra, anterior, Vinicius conta a experiência engraçada que sua irmã teve com Rubem, quando este foi tapeado por um malandro, que lhe vendeu um canário supostamente treinado para sempre retornar à gaiola. Logo na primeira oportunidade, o bichinho voou para a mata. Braga, homem da roça, sabia reconhecer todos os passarinhos que habitavam sua cobertura. Vinicius diz que chegou a se interessar por ornitologia por sua influência, mas não levou os estudos para frente. Assim como, certa vez, eles decidiram aprender carpintaria, o que, diz Vinicius, “resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura”.

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Mas a grande homenagem de Rubem Braga ao amigo, Vinicius não pôde ler. A crônica Recado de primavera, de 1980, é uma reverência póstuma ao poeta, que morrera alguns meses antes, na banheira de sua própria casa:

Meu caro Vinicius de Moraes,

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris […].

À primeira vista, Rubem parece impassível diante da ausência de Vinicius, mas é sua postura de homem retraído numa rigidez viril que não lhe permite manifestar saudades nem lamentações. Sua maneira de fazê-lo, então, é recorrer novamente aos temas que partilhavam: a natureza, as mulheres e, sobretudo, a observação do cenário urbano. Há qualquer coisa de melancólico na afirmação de que viu, sozinho, as garotas por Ipanema, onde Rubem e Vinicius costumavam pedalar juntos. Depois, sentados em algum boteco para retomar o fôlego da volta, eles observavam o movimento da cidade, com especial atenção às ciclistas. Numa dessas, nasceu a “Balada das meninas de bicicleta”, de Vinicius: “Bicicletai, meninada […]/ Solta a flâmula agitada/ Das cabeleiras em flor/ Uma correndo à gandaia/ Outra com jeito de séria/ Mostrando as pernas sem saia/ Feitas da mesma matéria”.

Escrever ao amigo, então, é um modo de reaproximá-lo, como se vivo estivesse. Em seguida, Braga toma refúgio na descrição dos passarinhos. Aos olhos de um ornitólogo amador, os tico-ticos construindo ninho são um claro sinal da chegada da primavera, que, ao destronar o inverno, carrega em si o símbolo da transformação, ainda que esta, em particular, não seja tão alegre assim. No último parágrafo, ele se despede:

O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

É curioso notar que, no desfecho, Braga até se reconcilia com a faceta de compositor do amigo. E, ao colocar-se como herdeiro de seu posto, o cronista refirma os valores humildes que os aproximavam. É como se, sem Vinicius, ele fosse o responsável por zelar pelas coisas singelas da vida, perpetuando o eco da delicadeza em suas crônicas.

Rubem Braga desempenhou sua função de guardião das ondas, dos tico-ticos e das moças em flor por mais dez anos, até dezembro de 1990, quando, vítima de uma parada respiratória consequente de um tumor na laringe que optou por não tratar, morreu num quarto de hospital, sozinho, como pedira aos amigos.

Cem anos depois, tendo sobrevivido à infalível peneira do tempo, a literatura de Rubem Braga e de Vinicius de Moraes estão presentes, porque necessárias. Mas me pergunto se, mais que isso, não seria preciso reviver certo otimismo cordial que nutriam, muitas vezes ingenuamente, para contrabalancear tantos valores opostos que imperam na sociedade — atualmente, muito mais do conde que do passarinho.

São Paulo, julho e outubro de 2013

EU ME REFERI…

… a Tom Jobim, o maior compositor do Brasil.

… a Pedro Nava, médico e escritor, conhecido por seus livros de memórias. Suicidou-se aos oitenta anos com um tiro na cabeça, numa praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

… aos cronistas Fernando Sabino, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos, colegas de Brava na Manchete.

… Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Antonio Maria e Millôr Fernandes, escritores que contribuíram, entre outros, com o semanário Comício (há, sobre isso, uma boa tese na FFLCH/USP de Samantha dos Santos Gaspar).

… Antonio Candido, crítico literário.

… Ferreira Gullar, poeta, sobre quem já escrevi aqui no site.

… aos poetas Manuel Bandeira, grande influência na obra de Braga, e João Cabral de Melo Neto.

Como referência bibliográfica, é indispensável citar os ensaios de Davi Arrigucci Jr. sobre Braga, assim como a biografia de Marco Antonio de Carvalho.

Dois senhores cronistas

(Este texto foi apresentado como introdução ao evento Voz do Escritor, organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, no dia 24 de outubro. Para falar sobre a crônica, os convidados eram Humberto Werneck e Ivan Angelo)

Humberto, Ivan e eu, lendo a introdução (Foto de Isabela Benassi)

Conta Fernando Sabino que, certa vez, João Guimarães Rosa lhe telefonou e perguntou o que estava fazendo. Ao responder que tentava escrever uma peça de teatro, ouviu do autor de Grande Sertão: Veredas o seguinte conselho: “Não faça biscoitos, faça pirâmides!”, em desdenhosa referência aos “gêneros menores”. Humilhado ao constatar que sua obra era uma padaria, Sabino consolou-se ao encontrar na história da literatura muitos faraós biscoiteiros, a começar por Machado de Assis. De fato, por definição, o cronista não pode ter a pretensão da glória literária, o que não significa que não nos maravilhemos com seus textos. Assim, o que parecem coisas opostas, de repente se confluem em pontos comuns. O deslumbre da pirâmide e o sabor do biscoito são caminhos distintos com finais semelhantes. Se me permitem a brincadeira, foi com a ingestão das madeleines, pequenos bolinhos de trigo, que o personagem de Marcel Proust mergulhou nas riquezas insuspeitas do passado.

O biscoito no cardápio de hoje é a crônica, cujo embrião foi importado por Francisco Otaviano em meados de 1800 do feuilleton francês. Não pretendo recuperar a história do gênero, mas me interessa um ponto em particular, que é a conquista da sua subjetividade. Ao longo do tempo, a crônica firmou na modernidade uma subjetividade própria. Ainda faz parte de seu charme dizer-se efêmera, destinada ao esquecimento, mas hoje já não se questiona a compilação de crônicas em livro, por exemplo, como o fazia o crítico Alceu Amoroso Lima, dizendo que “uma crônica, num livro, é como um passarinho afogado”. Aos poucos, essas questões foram sendo superadas, embora ainda se afirme, vez ou outra, inverdades poéticas do tipo “uma crônica não se faz, acontece”.

O ponto a que quero chegar é que vejo um gênero criando certa autonomia, transbordando das páginas dos jornais para arrebanhar outros meios, como os blogs. Se o jornal acabasse amanhã, a crônica viveria seu momento de luto, mas depois seguiria em frente. Na verdade, ela está atrelada ao jornal pela necessidade da frequência e pela ligação com o leitor, não por afinidade. Pelo contrário: o contraste entre a objetividade do jornal e a subjetividade da crônica lhe dá força para sobreviver, tal qual uma ilhota ficcional num vasto oceano informativo. É verdade que, às vezes, a notícia serve como mote de uma crônica, mas não passa de pano de fundo, dispensável. Todo indício de objetividade é um trampolim para a ficção, mesmo nas primeiras crônicas de Rubem Braga, um jovem autor ainda bastante jornalista.

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Aliás, é curioso observar como nosso jornalismo foi se reformulando. De uns tempos para cá, o olhar subjetivo conquistou espaço nas páginas, em detrimento da notícia rasa. É como se o leitor já não buscasse apenas o fato, que lhe é dado a todo momento mesmo a contragosto, numa violação noticiosa que vai do metrô às redes sociais. Ele está mais interessado em opiniões. Leve-se em conta que a internet não apenas estimula como abraça a capacidade crítica de cada um, convidando todos aos mais diversos fóruns de discussão e às terríveis caixas de comentários. Essa valorização da subjetividade é o que destaca uma repórter como Eliane Brum, por exemplo, tão interessada na vida de dentro quanto na de fora. E é o que permitirá, acredito, revitalizar a crônica literária, um tanto distinta, invariavelmente, daquelas da década de 50, que vibraram junto com o espírito da época. Hoje, os tempos são outros. Nos quais os textos de Humberto Werneck e Ivan Angelo, inovadores dentro de uma tradição, podem significar um princípio de renovação.

Humberto e Ivan são alunos da escola mineira de crônica, com especial apreço ao causo e em constante flerte com a narrativa. Diferente de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, que muitas vezes escreviam verdadeiros poemas em prosa, Ivan e Humberto buscam o lirismo em outras fontes. O arroubo poético, quase sempre dosado com humor, se dá pela experiência de vida, pela reflexão (muitas vezes de botequim), pelo descobrimento e sobretudo pela observação.

Sobre Humberto, destaco seu esforço quase flaubertiano de buscar sempre a palavra exata. Armado de todos os dicionários, traduz o gosto por questões vocabulares em muitas de suas crônicas – são curiosidades, definições e até revolta quando o caso é a falta de palavra. Humberto é aquele sujeito que aparece sempre com um achado lexical, o que não faz dele um dicionário ambulante de pedantismo, mas sim um almanaque vivo, bem humorado. A consequência disso, além do entretenimento do leitor, é a economia de espaço, o que é decisivo para o jornal – ele sabe, por exemplo, que pode-se substituir “sentir-se enjoado com a ingestão de muitas iguarias doces” por “arripunar-se”; ou, ainda, chamar a “borrachinha de vedação na porta da geladeira” de “graxeta”. Foi desse caldeirão vernáculo que surgiu a personagem Solange, prima sabichona que fala difícil e sabe o nome de tudo. Esse é outro feito de Humberto, aliás: reviver a crônica de personagens, meio em desuso desde Stanislaw Ponte Preta – com notável exceção a Luis Fernando Verissimo, que é um caso um pouco diferente, e por isso não será tratado aqui.

A prosa enxuta, como disse, é característica do gênero, mas se acentua na obra de Humberto, assim como na de Otto Lara Resende, outro “conhecedor dos segredos da língua” que também não fazia dela “instrumento de tortura”, nas palavras de Moacir Werneck de Castro.

Humberto, Ivan e eu, novamente (Foto de Isabela Benassi)

A respeito de Ivan Angelo, vale ressaltar sua condição rara de cronista múltiplo, isso é, aquele que consegue explorar os limites do gênero. Ivan vai de uma ponta a outra, aproximando-se ora do conto, ora da anedota. É um instrumento de muitas cordas, como diz o próprio Humberto. E assim como Paulo Mendes Campos, a coletânea de sua obra é bastante versátil, explorando inclusive questões formais que, a princípio, não combinariam com a crônica. Arrisco dizer que essa é uma herança que Ivan trouxe de sua experiência enquanto contista e, sobretudo, romancista. Afinal, só trinta e oito anos depois de estrear como escritor, Ivan passou a se dedicar às crônicas com frequência. É por culpa desses dribles de cronistas como Ivan, portanto, que a crítica costuma vacilar nas definições do gênero.

Um dos temas mais recorrentes em sua obra é o amor. Não o sentimento puro que aprendemos a banalizar, mas sua capacidade de mexer com a cabeça dos amantes. Os relacionamentos retratados vão também de um extremo ao outro: do primeiro toque de mãos tímido à morte planejada por envenenamento. Essa viagem no interior de homens e mulheres, quando mesclada a outros textos aparentemente prosaicos de cenas urbanas, nos leva a pensar sobre a infinitude do ser – porque a crônica faz de cada um de nós protagonistas em potencial de histórias extraordinárias. Talvez seja esse um dos pontos fundamentais de seu estabelecimento enquanto literatura.

Por fim, já me sinto culpado por tomar mais que os dois dedos de prosa convenientes à crônica, e passo a palavra àqueles que realmente sabem o que fazer com ela.