Dois senhores cronistas

(Este texto foi apresentado como introdução ao evento Voz do Escritor, organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, no dia 24 de outubro. Para falar sobre a crônica, os convidados eram Humberto Werneck e Ivan Angelo)

Humberto, Ivan e eu, lendo a introdução (Foto de Isabela Benassi)

Conta Fernando Sabino que, certa vez, João Guimarães Rosa lhe telefonou e perguntou o que estava fazendo. Ao responder que tentava escrever uma peça de teatro, ouviu do autor de Grande Sertão: Veredas o seguinte conselho: “Não faça biscoitos, faça pirâmides!”, em desdenhosa referência aos “gêneros menores”. Humilhado ao constatar que sua obra era uma padaria, Sabino consolou-se ao encontrar na história da literatura muitos faraós biscoiteiros, a começar por Machado de Assis. De fato, por definição, o cronista não pode ter a pretensão da glória literária, o que não significa que não nos maravilhemos com seus textos. Assim, o que parecem coisas opostas, de repente se confluem em pontos comuns. O deslumbre da pirâmide e o sabor do biscoito são caminhos distintos com finais semelhantes. Se me permitem a brincadeira, foi com a ingestão das madeleines, pequenos bolinhos de trigo, que o personagem de Marcel Proust mergulhou nas riquezas insuspeitas do passado.

O biscoito no cardápio de hoje é a crônica, cujo embrião foi importado por Francisco Otaviano em meados de 1800 do feuilleton francês. Não pretendo recuperar a história do gênero, mas me interessa um ponto em particular, que é a conquista da sua subjetividade. Ao longo do tempo, a crônica firmou na modernidade uma subjetividade própria. Ainda faz parte de seu charme dizer-se efêmera, destinada ao esquecimento, mas hoje já não se questiona a compilação de crônicas em livro, por exemplo, como o fazia o crítico Alceu Amoroso Lima, dizendo que “uma crônica, num livro, é como um passarinho afogado”. Aos poucos, essas questões foram sendo superadas, embora ainda se afirme, vez ou outra, inverdades poéticas do tipo “uma crônica não se faz, acontece”.

O ponto a que quero chegar é que vejo um gênero criando certa autonomia, transbordando das páginas dos jornais para arrebanhar outros meios, como os blogs. Se o jornal acabasse amanhã, a crônica viveria seu momento de luto, mas depois seguiria em frente. Na verdade, ela está atrelada ao jornal pela necessidade da frequência e pela ligação com o leitor, não por afinidade. Pelo contrário: o contraste entre a objetividade do jornal e a subjetividade da crônica lhe dá força para sobreviver, tal qual uma ilhota ficcional num vasto oceano informativo. É verdade que, às vezes, a notícia serve como mote de uma crônica, mas não passa de pano de fundo, dispensável. Todo indício de objetividade é um trampolim para a ficção, mesmo nas primeiras crônicas de Rubem Braga, um jovem autor ainda bastante jornalista.

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Aliás, é curioso observar como nosso jornalismo foi se reformulando. De uns tempos para cá, o olhar subjetivo conquistou espaço nas páginas, em detrimento da notícia rasa. É como se o leitor já não buscasse apenas o fato, que lhe é dado a todo momento mesmo a contragosto, numa violação noticiosa que vai do metrô às redes sociais. Ele está mais interessado em opiniões. Leve-se em conta que a internet não apenas estimula como abraça a capacidade crítica de cada um, convidando todos aos mais diversos fóruns de discussão e às terríveis caixas de comentários. Essa valorização da subjetividade é o que destaca uma repórter como Eliane Brum, por exemplo, tão interessada na vida de dentro quanto na de fora. E é o que permitirá, acredito, revitalizar a crônica literária, um tanto distinta, invariavelmente, daquelas da década de 50, que vibraram junto com o espírito da época. Hoje, os tempos são outros. Nos quais os textos de Humberto Werneck e Ivan Angelo, inovadores dentro de uma tradição, podem significar um princípio de renovação.

Humberto e Ivan são alunos da escola mineira de crônica, com especial apreço ao causo e em constante flerte com a narrativa. Diferente de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, que muitas vezes escreviam verdadeiros poemas em prosa, Ivan e Humberto buscam o lirismo em outras fontes. O arroubo poético, quase sempre dosado com humor, se dá pela experiência de vida, pela reflexão (muitas vezes de botequim), pelo descobrimento e sobretudo pela observação.

Sobre Humberto, destaco seu esforço quase flaubertiano de buscar sempre a palavra exata. Armado de todos os dicionários, traduz o gosto por questões vocabulares em muitas de suas crônicas – são curiosidades, definições e até revolta quando o caso é a falta de palavra. Humberto é aquele sujeito que aparece sempre com um achado lexical, o que não faz dele um dicionário ambulante de pedantismo, mas sim um almanaque vivo, bem humorado. A consequência disso, além do entretenimento do leitor, é a economia de espaço, o que é decisivo para o jornal – ele sabe, por exemplo, que pode-se substituir “sentir-se enjoado com a ingestão de muitas iguarias doces” por “arripunar-se”; ou, ainda, chamar a “borrachinha de vedação na porta da geladeira” de “graxeta”. Foi desse caldeirão vernáculo que surgiu a personagem Solange, prima sabichona que fala difícil e sabe o nome de tudo. Esse é outro feito de Humberto, aliás: reviver a crônica de personagens, meio em desuso desde Stanislaw Ponte Preta – com notável exceção a Luis Fernando Verissimo, que é um caso um pouco diferente, e por isso não será tratado aqui.

A prosa enxuta, como disse, é característica do gênero, mas se acentua na obra de Humberto, assim como na de Otto Lara Resende, outro “conhecedor dos segredos da língua” que também não fazia dela “instrumento de tortura”, nas palavras de Moacir Werneck de Castro.

Humberto, Ivan e eu, novamente (Foto de Isabela Benassi)

A respeito de Ivan Angelo, vale ressaltar sua condição rara de cronista múltiplo, isso é, aquele que consegue explorar os limites do gênero. Ivan vai de uma ponta a outra, aproximando-se ora do conto, ora da anedota. É um instrumento de muitas cordas, como diz o próprio Humberto. E assim como Paulo Mendes Campos, a coletânea de sua obra é bastante versátil, explorando inclusive questões formais que, a princípio, não combinariam com a crônica. Arrisco dizer que essa é uma herança que Ivan trouxe de sua experiência enquanto contista e, sobretudo, romancista. Afinal, só trinta e oito anos depois de estrear como escritor, Ivan passou a se dedicar às crônicas com frequência. É por culpa desses dribles de cronistas como Ivan, portanto, que a crítica costuma vacilar nas definições do gênero.

Um dos temas mais recorrentes em sua obra é o amor. Não o sentimento puro que aprendemos a banalizar, mas sua capacidade de mexer com a cabeça dos amantes. Os relacionamentos retratados vão também de um extremo ao outro: do primeiro toque de mãos tímido à morte planejada por envenenamento. Essa viagem no interior de homens e mulheres, quando mesclada a outros textos aparentemente prosaicos de cenas urbanas, nos leva a pensar sobre a infinitude do ser – porque a crônica faz de cada um de nós protagonistas em potencial de histórias extraordinárias. Talvez seja esse um dos pontos fundamentais de seu estabelecimento enquanto literatura.

Por fim, já me sinto culpado por tomar mais que os dois dedos de prosa convenientes à crônica, e passo a palavra àqueles que realmente sabem o que fazer com ela.