Ivan Angelo e a experiência da reescrita

Foto de Marcelo Min

Foto de Marcelo Min

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer” (Graciliano Ramos)

Não se sinta culpado se você nunca tiver lido Ivan Angelo, um de nossos maiores escritores em atividade. Mesmo sendo muito elogiado pela crítica – desde sua estreia em 1961 com o livro Duas faces, reunião de sete de seus contos e duas novelas de Silviano Santiago –, Ivan sempre foi meio recluso, sem muito gosto por entrevistas e avesso aos holofotes. Talvez porque ele seja, forçando o estereótipo, o mais mineiro dos mineiros que se mudaram para São Paulo na década de 60. Jornalista, Ivan participou de uma significativa experiência da moderna imprensa brasileira: “o então revolucionário Jornal da Tarde, criador de escola tanto na feição gráfica como no apuro do texto”. Sua função de editor, porém, o afastava do contato direto com o leitor. Sem fazer desse silêncio um charme de personalidade inacessível, parece que Ivan Angelo gosta mesmo é de escrever, não de falar.

Isso é constatável se olharmos sua carreira, mesmo que panoramicamente. Ivan não decepcionou os críticos que o apontaram como promissor em sua estreia: em 1976, publicou um dos mais importantes (e o mais notável, sem dúvida) romances de seu tempo. A festa, premiado com um Jabuti, é um livro de fôlego político, ambientado na ditadura militar e bastante marcado pelo clima opressor e violento. Mas diferente de outros tantos romances da época que hoje têm valor apenas enquanto documento histórico, A festa é, de fato, uma obra de arte – dessas que são capazes de “provocar arrepios cívicos e estéticos”, como escreveu Humberto Werneck, seu companheiro no Jornal da Tarde e nos cafés que tomam todas as quintas.

Um de seus aspectos mais chamativos é a estrutura, bastante experimental e recortada. Foi o crítico João Luiz Lafetá quem melhor a classificou: “romance-contos”. Os capítulos que compõem a obra podem ser lidos separadamente, pois são dotados de unidade, mas também “extravasam uns nos outros, como se compusessem um sistema de vasos comunicantes” (a expressão é do Lafetá). Alguns personagens aparecem em mais de um capítulo, mas o que atua como fio unificador porém não condutor é a festa anunciada – que, vejam só, nunca acontece. Trata-se, enfim, de uma literatura que somente um autor muito maduro e habilidoso, buscando um novo modo de narrar, saberia compor.

Usei a palavra “maduro” não por acaso, pois quero me deter em um episódio curioso da obra de Ivan Angelo. Publicado em 1986, o livro de contos A face horrível se encerra com uma valiosa experiência de reescrita, da qual todo aspirante a escritor poderá (deverá!) tirar proveito. O conto Dènouement (“desfecho” em francês) foi publicado originalmente em seu já citado livro de estreia. Aqui, 25 anos depois, ele volta a aparecer para, nas mãos do escriba experiente, desdobrar-se em mais dois: Entrevero do autor com seu conto, em que dispõe, ao lado da ficção juvenil, comentários cruéis e jocosos de uma leitura autocrítica; e Final, o conto totalmente refeito.

Tietando Ivan, no lançamento de seu "Certos homens", há alguns anos

Tietando Ivan, no lançamento de seu “Certos homens”, há alguns anos

Da leitura do original, vemos Libério, o narrador, angustiado com um impasse amoroso: sua esposa, Maria Lúcia, teve um caso com outro homem. No tormento psicológico do personagem principal, sua voz narrativa se divide em duas: uma se questiona e faz suposições; – ela me amava antes?, de quem é a culpa? – outra, ataca e refuta os questionamentos – ela é a culpada, seu idiota, claro. Basicamente, a primeira é emocional e ganha a simpatia do leitor, enquanto a segunda, expressando sua racionalidade num português excessivamente culto, o repele – um processo esquemático que nos remete ao anjo e ao demônio disputando o controle do homem. A junção das duas vozes retrata uma mente fervilhante que se prepara para um grande acontecimento.

Decidido, Libério convida Malu para um passeio em Congonhas, cidade que abriga os profetas esculpidos por Aleijadinho. Lá, surpreende sua esposa com a inscrição da estátua de Osaías: “Aceita a mulher adúltera e com ela tem novos filhos”. Descoberta e envergonhada, ela acaba revelando a trama secreta, digna de uma novela televisiva, que envolve, entre outras coisas, um amor jurado mas impossível na juventude. Vocês sabem: eles se amam, mas a vida os separam; eles se casam com outros, mas a vida os une. A discussão do relacionamento segue-se intensa, porém bastante artificial, como demonstra o pensamento de Libério:

“Preciso compreendê-la para não desprezá-la. Estou de tal modo ligado a ela que é impossível desprezá-la sem desprezar-me”.

O autor, aí, deixa escapar uma preocupação quanto à capacidade do leitor de compreender sua história, usando frases explicativas e francamente didáticas – como se isso suprisse uma lacuna técnica que não permitia o escritor inexperiente conduzir seus leitores somente através da ficção.

Nesse rodeio excessivamente interno, de muita pergunta e pouco gesto, é Libério quem sai perdendo, porque percebe que não poderia ter feito esse jogo humilhante com a esposa. Malu não quer voltar para casa e não pode continuar o relacionamento. Derrotado, Libério encontra a solução para o drama logo em seguida, na estrada: um caminhão enorme, contra o qual joga seu carro instintivamente. Dènouement tem, portanto, um desfecho dramático e excessivo, pois a morte pode ser sempre uma solução fácil.

O texto seguinte, Entrevero do autor com seu conto, é de pouca explicação mas de muito proveito. Trata-se do escritor mais velho apontando os defeitos – e alguns acertos – do mais novo. Das suas observações, a mais significativa me parece ser a seguinte:

“Bastaria dizer que o cara estava tranquilo e quando a mulher transou outro homem ele fundiu a cuca. Duas ou três frases, sem babaquices tipo ‘como poderia ela ter certeza dos meus sentimentos?’. O parágrafo parece arrumado para contar o passado das personagens, é narrativo demais e não deveria ser. Tem de funcionar por justaposição, a soma é que deve narrar e dar sentido”.

Está poupado o trabalho do crítico. Através de outros caminhos, Ivan chegou à mesma conclusão que o russo Joseph Brodsky quando disse que “O que torna uma narrativa boa não é a história em si, mas o que se segue a quê”. Aprendida a lição, Ivan Angelo aponta a necessidade de alterar tanto a forma quanto o conteúdo de seu conto, sem poupar-se de puxões de orelha que sofrem os irmãos caçulas.

Primeira edição de "A face horrível", de 1986

Primeira edição de “A face horrível”, de 1986

Final, o resultado desse exercício, é essencialmente diferente de sua matriz. A mudança mais notável é a linguagem, que abandona toda a pompa e os pronomes em segunda pessoa para tornar-se coloquial, fácil. Os devaneios de Libério recebem polimento: a dualidade das vozes internas desaparece, dando lugar a uma única, incerta, confusa, agressiva. As contradições do humano ficam claras e, por consequência, o homem fica exposto – não há espaço para a metafísica, o bem e o mal. O trecho que usei acima, para exemplificar o primeiro conto, se transforma no seguinte:

“Preciso é saber por quê. Conhecê-la melhor. Protegê-la”.

A economia das palavras e as frases curtas dão ritmo à escrita, que agora se faz numa cadência propícia ao conflito interno. Tudo vira mais palpável, mais verossímil, próximo ao homem real – algo com o qual o leitor pode se identificar. Basta pensar que Dènouement vira, simplesmente, Final. Ou, então, que o casal que antes se suicidava tragicamente, agora volta para casa brigado, em silêncio. É o que geralmente acontece com os pares que brigam, não? O que antes era uma questão de morte, passa a ser “uma questão de tempo, como um castigo”. Muito mais moderno, e profundo. E a inscrição do profeta, que funciona como síntese do conto, foi cortada pela metade: “Aceita a mulher adúltera”, apenas. Não é preciso mais do que isso – pelo menos para um escritor do nível de Ivan Angelo.

Essa prosa enxuta, longe de ser esturricada, é uma valorosa qualidade para o ofício de cronista que Ivan pratica com mais dedicação desde 1999, quinzenalmente, nas páginas da revista Veja São Paulo. Sobre suas crônicas, prometo dedicar outro texto, pois seria injustiça de minha parte querer abordar um dos maiores cronistas contemporâneos nesse dènouement – ou melhor, nesse parágrafo final.

 São Paulo, agosto de 2013

EU ME REFERI…

… a Silviano Santiago, escritor e crítico literário, autor do clássico Uma literatura nos trópicos.

… ao prefácio do jornalista e escritor Humberto Werneck para a coleção Melhores crônicas, da editora Global.

… à conferência de João Luiz Lafetá, saudoso professor e crítico literário, transcrita sob o título de O romance atual e publicada no livro póstumo A dimensão da noite, das editoras 34 e Duas Cidades.

… Joseph Brodsky, Nobel de literatura. A citação é do Marca d’água, um exercício de reflexão e imaginação sobre Veneza.

Recomendo a deliciosa matéria que Humberto Werneck escreveu sobre o Jornal da Tarde, da qual tirei uma citação sem dar o crédito; assim como essa entrevista feita por Rafael Rodrigues, do Paliativos, com Ivan Angelo.