Os desencontros amorosos de Chico Buarque e Clarice Falcão

chico buarque

Folheando um livro sobre pinturas rupestres – aquelas primitivas registradas nas cavernas –, me deparei com uma gravura inusitada. Enquanto duas figuras copulam, num gesto que sugere bastante agressividade, uma terceira, mais distante, está com os braços abertos. É possível interpretar essa cena de diversos modos: um amigo disse tratar-se de um estupro, outro sugeriu o ménage, e eu, ingênuo, acreditei no amor. O terceiro sujeito está com os braços erguidos por espanto – não por felicidade, como enxergaram os amigos –, pois vê outro em seu lugar consumindo seu amor. “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucuras por uma mulher?” Fui longe, eu sei, mas a verdade é que o tema do desencontro amoroso é recorrente desde que se tem notícia da arte. A gente pode não desconfiar, mas os gregos também amavam, os egípcios traíam, os maias tinham dificuldade de se declarar. Dos primórdios do verso aos dias de hoje, ouve-se um constante lamento pelo outro. Com o perdão de pular uns quarenta mil anos de humanidade, escolhi duas canções recentes pra falar um pouco disso. Uma de Clarice Falcão, ainda novidade na praça, e outra de Chico Buarque, para quem o amor é um prato cheio.

pintura

De Chico, as opções são vastas. Poderia ter escolhido Noite dos mascarados, em que os amantes, totalmente opostos, deixam tudo de lado em nome da folia do carnaval; ou Sem Fantasia, de uma paixão rasgada, declaração proibida; ou, ainda, Pelas tabelas, uma divertida “crônica” sobre um casal perdido no meio da confusão das passeatas pelas Diretas Já. Sem muito motivo, peguei uma do último disco de Chico.

Essa pequena é produto de uma fase do compositor que começou, eu diria, com Paratodos, de 1993. De lá pra cá, Chico consagrou-se por completo como um músico maduro, atento ao silêncio do tempo, permitindo-se questões mais complexas, às vezes pouco “musicáveis” à primeira vista. Mesmo a simplicidade parece mais polida. Esse tratamento diferenciado se nota também através das melodias, que, em alguns casos, passaram a ser menos assobiáveis. Sobre isso, porém, não sei falar, pois não tenho conhecimento técnico sobre música. Em suma, não consigo imaginar muitas de suas últimas melodias em discos mais antigos.

O blues despretensioso pinta um relacionamento baseado na diferença. Logo nos primeiros versos, Chico dá o tom: ele, de cabelo cinza e tempo curto; ela, com tempo de sobra e cabeleira cor de abóbora. Não precisava o eu lírico se confessar para que nós entendêssemos que a coisa não poderá durar muito – ele, “cuidando dela que anda em outro mundo”, nem sabe direito o que ela fala, mas não se cansa de contemplá-la. Se houvesse uma versão com a visão feminina do relacionamento, imagino que esse doce desentendimento se reforçaria. Os ritmos descompassados me remetem à certa tarde de minha infância, em que me irritei com o gato da casa esticado ao sol enquanto eu me esforçava para terminar os exercícios de matemática. “Esse bicho aí parado, numa vida vazia de tomar sol”, pensei. De repente senti que o gato, me olhando, devia estar fazendo o mesmo julgamento: “esse bicho aí parado, numa vida vazia de somar números”.

Voltando à canção, é curioso notar como essa diferença se reforça em seu plano formal. A quantidade ínfima de rimas é sugestiva. Sendo a rima um recurso de identificação, de proximidade, sua ausência pode indicar um efeito oposto, sobretudo numa canção popular. É como se as coisas de fato não combinassem. Às vezes, a diferença sonora entre as palavras é tão pequena que pode-se cair na tentação de querer forçá-las um pouquinho para que rimem. É o caso de “sobra” com “abóbora”, “acorda” com “Flórida”. Chega a dar uma pequena aflição.

À época do lançamento do disco, houve quem criticasse o compositor por esse tipo de “deslize”. Disseram que rimar “sai” com “time” (do inglês) era forçar a barra. Qualquer sujeito um pouco mais sensato, no entanto, não poderia acreditar que Chico, com quase quarenta anos de carreira, tenha esquecido como se rima, de modo que o chute na trave é proposital. As coisas quase se encaixando me parece uma ótima metáfora para um relacionamento complicado – que, apesar de tudo, vale a pena.

clarice falcão

Clarice Falcão é (ou será, logo menos) uma das novas queridinhas da música brasileira. Ela ficou conhecida primeiro por sua atuação em esquetes de humor na internet. Com o violão e toda a inocência desse mundo, Clarice costumava cantar histórias absurdas, como aquela sobre jogar-se do oitavo andar em cima da pessoa amada que acabou de dizer adeus ao relacionamento: “E aí, só nós dois no chão frio / De conchinha bem no meio fio / No asfalto riscados de giz / Imagina que cena feliz”. Sempre narrando o inusitado de modo a transformar situações banais em cenas descabidas, Clarice deu consistência à carreira musical com o lançamento do disco Monomania. Seguindo o mesmo tom tragicômico, a sinceridade de suas letras chega a ter um apelo patético, reforçado pela exposição de tantas associações disparatadas – aquelas que a gente faz até com frequência, mas não comenta com ninguém. Seu disco, se filmado, daria uma comédia romântica para um sábado à tarde.

Tive uma surpresa ao ouvir o Monomania. Confesso que o fiz um pouco armado do preconceito que a Mallu Magalhães deixou em mim: “Lá vem mais uma menininha se fazer de inocente. A vida é muito curta para isso”. Mas com Clarice foi diferente, não se trata bem disso. Seu disco me mostrou que é possível fazer música assim a sério. Digo, uma canção aparentemente boba pode ter um significado maior, e, com sua simplicidade, transmite o recado muito bem. É o caso de Eu me lembro, cantada em dueto com Silva, outro compositor daquilo que, tendo surgido após a onda da “Nova MPB”, só poderia ser chamado de “Novíssima MPB” – e assim vamos, até alguém ter coragem de inventar algo melhor. Essa canção, inocentemente afável, dá voz a um casal relembrando a primeira vez em que se viram. Sua graça está na contradição das falas: para cada verso de um, existe um verso do outro que afirma algo completamente diferente. Enquanto ele se lembra de uma festa muito animada e de feijoada, ela recorda oito ou nove gatos pingados no salão e de presunto enrolado no melão.

Assim como na canção de Chico, o casal parece unido apenas pelo amor. A afeição é o ponto comum entre os dois mundos, que giram em órbitas fora de ritmo: de tempos em tempos, elas se cruzam. E no fim das contas, parece que esse é o único elo necessário. Não importa se foi numa terça ou numa quinta-feira de setembro ou de dezembro, o blues já valeu a pena.

A única reação possível para quem ouve essas canções é um sorriso meio perdido, um suspiro leve de quem se lembra de um momento bom, um desejo de que as coisas se acertem entre eles – e, por que não?, entre nós. Estarei sempre na torcida, sobretudo pelo camarada rupestre, que tem toda minha compaixão.

São Paulo, setembro de 2013

EU ME REFERI…

… à canção Nervos de aço, de Lupicínio Rodrigues.

… ao disco Paratodos, que é, para mim, o início dessa fase madura de Chico. Alguns “estudos” buarqueanos apontarão coisas distintas.

… ao disco Monomania, de Clarice, que pode ser comprado pelo iTunes.

… à canção Oitavo andar (Uma canção sobre o amor), de Clarice. O clipe, feito pelo pessoal do Porta dos Fundos, pode ser visto aqui.

… a Mallu Magalhães, uma menina chatinha que parece estar melhorando aos poucos – musicalmente, claro.

… a Silva, compositor e instrumentista capixaba, autor do álbum Claridão, também disponível pelo iTunes.

Confusões literárias: Guilherme de Assis, Clarice Tauil e os três Rubens

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Eu devia ter uns quinze anos quando comecei a ler Machado de Assis pra valer, ainda com pouco gosto pela literatura. Naturalmente, eu não tinha maturidade suficiente para lidar com o texto, de modo que só compreendi o que me foi dado, o que estava à vista – o que é fatal para a leitura da prosa machadiana. Talvez fosse pensando um pouco nisso que Mário de Andrade costumava dizer que só se devia ler Machado depois dos trinta. Quase nada ficou dessa primeira leitura, portanto, mas o contato valeu pelo furor que senti: eu não entendia muito bem, mas sabia que diante de mim estava algo muito grande. Senti que era preciso difundir essa literatura, e, levantando a bandeira, decidi juntar todos os contos do homem num só blog, que ainda existe. Para minha surpresa, ele continua sendo bastante acessado, e vez ou outra recebo notificação de comentários – não costumo lê-los, porque são sempre muito genéricos, mas tive a sorte de não deixar passar as palavras de um distinto e anônimo senhor inglês, que disse ter ficado encantado com o texto, mesmo entendendo pouco a língua. Despedindo-se, me perguntou em tom de animada sugestão se não seria o caso de eu, Machado de Assis, juntar meus contos e publicar um livro. Seria um sucesso, garantiu. Esse deve ser o primeiro caso de um inglês que caiu no conto do Machado.

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Meu exemplar de "Freedom".

Meu exemplar de “Freedom”

Sou um assíduo frequentador da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty. Não perco uma há oito anos – considerem esse número ser praticamente metade da minha vida. Em 2012, Jonathan Franzen, badalado escritor americano, andou palestrando por lá. Fatalmente, perguntaram a ele quais autores brasileiros já tinha lido – parece que essa é a nossa pergunta preferida de se fazer aos gringos. Depois de citar três nomes, Franzen lamentou nos ler tão pouco e pediu que o público sugerisse bons escritores nacionais. Como de praxe, terminada a palestra, dirigiu-se à mesa de autógrafos para atender a imensa fila de fãs. Por mera coincidência (não sou exatamente um bom leitor de “Liberdade”), eu era um dos primeiros da fila e me achei no direito de sugerir-lhe algo. Clarice Lispector, pensei, seria uma boa pedida. Arrumei um pedacinho mínimo de papel, onde escrevi “Clarice L.” e entreguei a ele. Mas Franzen, numa pressa muito americana, não me deu a chance de explicar que o “Lispector” tinha ficado de fora por falta de espaço e assinou logo meu exemplar de “Liberdade”, dedicando-o à Clarice. E foi assim que, jamais tendo publicado um conto, eu virei Clarice Lispector e entrei para a história da literatura. Ser Clarice dói menos do que parece, acreditem.

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Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Para seus padrões interioranos, Taubaté é uma cidade com bons sebos. É de meu costume fazer um circuito por eles quando retorno à terrinha para as férias, para ver o que chegou enquanto estive fora. Às vezes, encontro raridades por um preço que chega a ser um insulto – quinze reais pelo primeiríssimo compacto do Chico Buarque, por exemplo. Não existe, por lá, ninguém que saiba muito bem o que está vendendo. Livro é livro. Assim, pedi a todos os sebistas taubateanos que me separassem tudo que tivessem de Rubem Braga. Alguns dias depois, passei recolhendo minhas encomendas, numa caminhada que termina no mercado municipal, imundo e caótico, exatamente como convém. No meu ponto de chegada, que é o sebo do seu Dito, perguntei pelos livros do velho Braga. Dito, um senhorzinho que disfarça a gagueira com um vasto bigode, me apontou uma pilha de livros no balcão. “Separei para você!”, disse, muito satisfeito. Eram todos títulos de Rubem Fonseca. Achei graça na confusão e a comuniquei ao seu Dito, que se justificou, dizendo que era quase a mesma coisa, e insistiu no erro, perguntando se não servia não. Educadamente expliquei que são autores muito diferentes, e que precisava mesmo era do Braga. Em desaprovação, seu Dito balançou a cabeça e sumiu, lentamente, pelo corredor de enciclopédias e dicionários. Alguns minutos depois, voltou assobiando com um livro na mão. Tratava-se de um Rubem Alves antiguinho, mas em bom estado, que eu não consegui recusar.