Ferreira Gullar e o osso de sua perna

(Foto de Gilson Camargo)

Foto de Gilson Camargo

Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

(Caetano Veloso)

A grande ambição do aspirante a crítico literário é, imagino, terminar um bom livro, suspirar, levantar-se da poltrona, debruçar-se na janela e sentir-se inquieto. Impregnado pelo que acabou de ler, ainda com as frases ecoando na cabeça, ele quer compartilhar com outros leitores suas descobertas e impressões, e para isso sente-se encorajado a escrever sobre a obra, numa vocação que é solitária por ofício, mas compartilhada, porque humanizante.

De modo que quando recebi meu primeiríssimo trabalho de estudos literários, fiquei empolgado, porém com medo – como convém reagir a toda grande novidade. A tarefa era analisar um poema do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar. Eu já tinha certa familiaridade com sua poesia, pois ele figurava no meu panteão de poetas prediletos; mas havia o receio de fazer uma análise, ainda que muito primária, por falta de tato – sempre fui melhor leitor de prosa. Por ser um dos poucos poemas que sei de cor, escolhi discorrer sobre “Acidente na sala”, o qual reproduzo aqui sem a formatação exata (as ferramentas do site são contra o verso livre):

movo a perna esquerda

     de mau jeito

e a cabeça do fêmur

                atrita

                com o osso da bacia

sofro um tranco

e me ouço

perguntar:

aconteceu comigo

ou com meu osso?

e outra pergunta:

     eu sou meu osso?

     ou somente a mente

que a ele não se junta?

e outra:

se osso não pergunta,

quem pergunta?

alguém que não é osso

     (nem carne)

     em mim habita?

alguém que nunca ouço

     a não ser quando

     em meu corpo

um osso com outro osso atrita?

Deixando de lado os recursos mais, digamos, primários da linguagem, como a aliteração e a rima, resta-nos ainda as inquietudes do poema – como, por exemplo, o que pode significar esse movimento de partir do mínimo (osso) para o máximo (ser). O gesto parece provocar no leitor uma angústia agridoce de saber-se parte de algo maior do que si mesmo. Se não sabemos nem dos limites do nosso próprio corpo, essa carcaça que invariavelmente apodrece, que poderemos saber do resto do universo?

Porque sim, nós somos o nosso corpo, é claro – mas nem tanto. Essa afirmação absurda pode ser pertinente se tomarmos como exemplo seu funcionamento. Que me corrijam os biólogos, mas se eu espetar o dedo em uma agulha, as plaquetas do meu sangue liberarão tromboplastina, que transformará a protrombina em trombina, capaz de agir sobre o fibrogênio para a fabricação de fibrina, proteína insolúvel que, por sua vez, irá formar uma rede para estancar o sangramento. Vejam, eu sou um mero cidadão que gosta de um pouquinho de leite em seu café, que guarda até hoje uma nota de um real na carteira, que sofre por amor e que fica melancólico durante os domingos – e ainda assim capaz das mais complexas reações químicas, sem nem ter consciência delas.

A poesia de Gullar, nesse livro especialmente, se expressa na ponte entre o ínfimo e o gigantesco, o aqui e o lá, o impossível e o improvável – o que acaba sugerindo a posição do homem neste Universo: somos heróis medíocres sem nenhuma odisseia para protagonizar. Estamos tão distantes da mosca, “cuja existência talvez dure / pouco mais de uma hora”, quanto da galáxia, “que demora 250 milhões de anos / para fazer / um giro / completo / em torno de seu eixo”. Insetos ou via láctea, pra gente tanto faz. E essa é a graça.

O incrível é que caiba poesia nesse vórtice da existência – onde uns apenas poderiam constatar tristeza e solidão. Alfredo Bosi, prefaciando o “Em alguma parte alguma”, ecoa muito propiciamente uma frase de Pascal: “Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie” (O silêncio eterno dos espaços infinitos me assusta, me disseram). Para entender um pouco melhor esses infinitos, tanto externos quanto internos ao ser, resolvi pedir uma entrevista ao próprio Gullar, que, sem saber quem eu era, me convidou para uma conversa em sua casa.

E assim fui ao Rio de Janeiro, pela segunda vez – a primeira, quase um ano antes, resumiu-se a um bate-e-volta para assistir o Fluminense empatar miseravelmente. Com apenas mochila nas costas e gravador no bolso, desci na rodoviária e liguei para um amigo, que havia concordado em ser meu guia desde que pudesse participar da entrevista. Ele me instruiu que eu o esperasse em frente ao Copacabana Palace. Assim, tomei um táxi que me cobrou o dobro para me deixar no hotel, onde havia uma multidão à espera de um tchauzinho da janela de não sei qual celebridade americana. Achei a situação patética; me pareceu muito desmedido torrar sob o sol (do Rio!) para ver o ídolo de longe.

Mesmo sem conhecer a cidade, me lembrei que perto dali havia um lugar melhor para se aguardar, e saí à procura de Carlos Drummond de Andrade. Caminhando pelo calçadão, percebi que o sotaque paulistano de meus pés apressados contrastava com o andar solto do carioca, que vai num molejo muito mais gingado, e me senti um pouco envergonhado. Talvez por isso, sentei-me ao lado da estátua de Drummond, que ouviu em silêncio tudo o que eu tinha para falar. Depois do estático esquenta literário, voltei ao Palace, onde meu amigo me esperava, e viramos na Rua Duvivier. Em frente ao nosso destino, um prédio muito velho, comuniquei a entrevista marcada ao porteiro, que apontou um interfone, onde apertei o quatro e depois o dois e esperei que uma voz rouca indagasse o “pois não”. Era o próprio Gullar, autorizando-nos a subir. No elevador, respirei fundo e encarei o espelho, pensando que todos aqueles fãs do Copacabana Palace deveriam ter inveja de mim, pois eu não só veria um ídolo como estaria protegido do sol.

O poeta nos esperava de porta aberta e, numa seca cordialidade, apertou nossas mãos e indicou as cadeiras. Murmurou qualquer coisa e sumiu na penumbra de um estreito corredor. Nesse momento, me senti inseguro, porque percebi que não estava preparado para a entrevista. Sem ter elaborado nenhuma pergunta muito boa, olhei ao redor em busca de assunto. Mas aquelas paredes abarrotadas de quadros quase sobrepostos, aquela luz muito fraca e aquele ar viciado me sufocaram. Tudo me pareceu muito sério e melancólico – com exceção da tevê ligada numa partida de tênis, que me fez rir porque imaginei Gullar, fã de esportes, praticando sua ginástica diária. Do breu, o poeta ressurgiu a passos largos e sentou-se diante de nós.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto do André Cruz.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto de André Cruz.

Solícito, conversamos por quase duas horas a respeito de sua carreira (começou com versos alexandrinos), da influência de outros poetas (descobriu com Drummond que letras de macarrão cabem na poesia), de artes visuais (detesta as vanguardas que expõem larva de mosca no museu, vazias de significado), de amor (uma namorada russa que teve que esquecer), de política (envelheceu à direita, sem dúvida), de música (levou vinte anos e vinte minutos para botar letra em “O trenzinho do caipira”), de literatura (relê muito mais do que lê) e de sua produção (a divisão das páginas de sua obra completa pelos anos de atividade é algo perto de dez páginas por ano).

Percebi que Gullar insistia em alguns temas, bastante presentes em sua obra, sobretudo no “espanto” – que é uma tradução que encontrou para a surpresa, o inesperado, as infinitas possibilidades e probabilidades da vida. É esse o maior combustível de sua poesia, costuma dizer. Lembro-me especialmente de “Abduzido”, que nasceu quando o poeta, levantando-se de madrugada, acendeu a luz do banheiro e viu o próprio rosto no espelho: “deparo-me / comigo / em frente a mim / como se fosse um outro: / estarei noutro?”. Das coisas mais banais brotam profundas indagações. A repentina descoberta da própria cara, a mesma desde sempre, é ponto de partida para questões existenciais presentes em todo o livro, não por descuidada repetição, mas por curiosa e inesgotável investigação. Afinal, um homem passa mesmo a vida escrevendo sobre dois ou três assuntos – são os temas que o espantam até o fim – e o resto é pura distração.

São Paulo, 3 de agosto de 2013

EU ME REFERI…

… À canção “Livros”, de Caetano Veloso, que me serviu de epígrafe.

… Aos poemas “Acidente na sala”, “O tempo cósmico” e “Abduzido” do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar.

… Ao prefácio de Alfredo Bosi, crítico literário, para o mesmo livro.

… A André Cruz, meu guia carioca e mestre em literatura brasileira e teorias da literatura pela UFF.

… A Carlos Drummond de Andrade, poeta que vocês conhecem muito bem.

… A Blaise Pascal, filósofo francês.

Agradeço a Guilherme Chaves por me emprestar o livro e a Camille Lohmeyer pela tradução.