Antonio Candido, Luis Martins e a geração Coca-Cola

Decio de Almeida Prado, Paulo Afonso Mesquita Sampaio, F. Coaracy e Paulo Emílio Salles Gomes, com garrafas não sei de quê

Decio de Almeida Prado, Paulo Afonso Mesquita Sampaio, F. Coaracy e Paulo Emílio Salles Gomes, com garrafas não sei de quê.

Antonio Candido, Decio de Almeida Prado e Gilda de Mello e Souza conversam sobre o Clima, grupo de intelectuais que constituíram. Candido, lembrando de como eram descontraídos, diz que costumavam “sair para fazer excursões na redondeza e tomar chá”. Tomar chá, professor? Lembrei da crônica “Apelidos”, de Luis Martins, boêmio a ponto de ser chamado de Louis Martin do Bar, em alusão ao escritor francês Roger Martin Du Gard, em que, ao lado de Rubem Braga, outro beberrão, caçoava do pessoal da USP. Publicada no dia 3 de janeiro de 1956 em O Estado de S. Paulo, a crônica revisita uma relação conflituosa de mais de dez anos:

“[…] Inventei, sim, uma expressão frequentemente atribuída a Oswald de Andrade que se tornou conhecida nos meios literários, mas cuja circulação ficou apenas a eles limitada: a expressão ‘geração Coca-Cola’, com a qual até hoje se designa o brilhante grupo paulista de Clima.

Posso precisar, até, como ela nasceu. Uma tarde, eu tomava um uísque na antiga Seleta, em companhia de Rubem Braga, quando na velha confeitaria da rua Barão de Itapetininga entraram Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Rui Coelho, Decio de Almeida Prado e outros, de que não me recordo; o tempo viria a nos tornar amigos, mas naquela época, eu (como Rubem Braga) mal os conhecia. Sabíamos ambos, vagamente, que eram rapazes inteligentes, recém-formados pela Faculdade de Filosofia, e que estavam tratando de organizar uma revista de cultura. Apenas nos cumprimentaram e foram sentar-se a outra mesa, mais aos fundos. Rubem, que estava de mau humor nesse dia, fez um comentário qualquer, meio azedo, sobre os petulantes meninos… De frente para eles, eu percebi que quase todos pediam coca-cola ao garção. Voltei-me para Rubem, sorrindo:

– Meu caro, é uma geração de Coca-Cola…

E, acintosamente, exigimos do garção mais dois uísques. No dia seguinte, escrevi uma crônica – primor de incompreensão e parti-pris – em que estranhava a ausência de espírito boêmio, a falta de lirismo juvenil, naqueles moços que começavam a carreira literária escrevendo ensaios, em vez de sonetos, e que, em lugar de poéticas bebedeiras, tomavam inofensivos refrigerantes; na crônica, falava em ‘geração Coca-cola’. Mais tarde, em rodapé da Folha da Manhã, Antonio Candido me deu a resposta, cordial, delicadíssima e – é inútil acrescentar – inteligentíssima. Mas já então começávamos a ser amigos…”

carta-a-luiz-martinsA tal resposta de Antonio Candido, publicada em 17 de setembro de 1944 na Folha da Manhã, era um confronto não só contra Luis Martins – com quem, aliás, Candido se encontrava com frequência na livraria Jaraguá e na cervejaria Franciscano, da Líbero Badaró, onde Mario de Andrade costumava presidir uma mesa –, mas contra todo um grupo de intelectuais que espetava a turma do Clima, como Oswald de Andrade, que os tratava por “chato-boys”. Eram acusados de ser impregnados de sociologia, e, por isso, de “não ter poesia, não ter capacidade de ficção, preferindo um conjunto de disciplinas objetivas e racionais”. Candido começa a partir da crônica mencionada por Luis Martins:

“Como ainda recentemente, ao referir-se de maneira generosa a um grupo de moços, você retoma a questão, pus-me a pensar no problema e a examinar as afirmações feitas sobre ele por você, Sergio Milliet e alguns outros. Falando pro domo, não sei se vou ser parcial ou propor argumentos especiosos. Como, porém, nas suas argumentações há muito de pro domo, ficamos quites”.

E o professor segue em defesa de uma nova postura acadêmica, de um perfil multidisciplinar de pesquisadores que passaram a valorizar questões antes apenas auxiliares. E, lá para as tantas, arremata:

“Você achará talvez que estou jogando bruto ao explicar o fenômeno com uma crueza que pode parecer cinismo. Pense bem, ponha a mão na consciência, tome o seu uísque das cinco horas e depois me dê a resposta…”

Antonio Candido e Tom Jobim, brindando taças de vinho (do programa "3 Antonios e 1 Jobim").

Antonio Candido e Tom Jobim, brindando taças de vinho (do programa “3 Antonios e 1 Jobim”).

Os cães engarrafados

(Este ensaio foi publicado na terceira edição da Cisma, revista de crítica literária e tradução feita pelos alunos da graduação do curso de Letras/USP, cujo conteúdo está disponível no www.revistacisma.com)

RB e VM

“Nunca vi boa amizade nascer em leiteria – o uísque é o melhor amigo do homem.
Uísque é o cachorro engarrafado”
(Vinicius de Moraes)

Rubem Braga e Vinicius de Moraes, cujos centenários agora se comemoram, compartilham mais que o ano de nascimento. Rubem, um de nossos maiores cronistas, foi também poeta. Vinicius, um de nossos maiores poetas, foi também cronista. Ambos exerceram postos diplomáticos, e, durante muitos anos, cultivaram uma amizade que respingou na literatura em forma de mútuas homenagens.

Entre as duas obras, existem muitos pontos convergentes. Talvez o mais notável seja o apreço às coisas efêmeras e pequenas, pelo que já foi e pelo inalcançável, pelo interior e pela simplicidade. Além da literatura, a afinidade entre os dois se evidencia também através das personalidades, que podem sugerir algum esclarecimento de questões referentes às obras: foram homens de uma generosidade atípica, que encaravam a vida de uma perspectiva humilde, numa atitude de certa leniência diante de alguns dos mistérios do mundo – mas de constante questionamento e inquietação a respeito da condição humana, seja pelo indivíduo ou pela coletividade.

Bom exemplo dessa cordialidade é o fato de que tanto Vinicius quanto Rubem foram renomados anfitriões. A casa de Vinicius de Moraes permanecia sempre aberta, sobretudo nas décadas de 50 e 60. Eram frequentes as reuniões de amigos, artistas e intelectuais, que se juntavam em saraus regados a uísque e violão. Os versos de Água de beber, parceria do poeta com Antonio Carlos Jobim em 1961, parecem dar conta desse espírito generoso: “a minha casa vive aberta/ abri todas as portas do coração”. E mais do que abrir a própria casa, Vinicius parece ter sido o responsável por desencadear um destrancamento geral de portas entre muitos artistas da cidade, que passaram a promover em suas casas reuniões musicais muito propícias àquele Rio de Janeiro que respirava uma bossa nova.

Rubem Braga, por sua vez, jamais trancava a porta de sua famosa cobertura em Ipanema, de onde se tem uma vista privilegiada do mar. Qualquer amigo que quisesse desfrutar de seu jardim suspenso sem aviso prévio, bastava pegar a escada do décimo segundo andar, empurrar a porta e servir-se de uísque. Inclusive quando o próprio cronista não estava em casa – ou, então, quando ele nem se levantava de sua rede diante da presença dos amigos. Mas, diferente da morada de Vinicius, os encontros na cobertura de Braga não eram tão festivos. Reservado e tido como mal humorado, Rubem preferia a calma das conversas, e, não raro, dos monólogos: contam que muitas vezes ele só ouvia o que os outros tinham a dizer.

E muitos dos convidados para as festas de Vinicius eram, também, frequentadores da cobertura, pois ambos participavam da mesma turma de boêmios e intelectuais que se encontrava nos bares do Rio – entre eles, o Amarelinho, o Vermelhinho, o Lidador e o Westphalia. Vinicius chegou a incluí-los em uma descontraída balada que serve como ilustração do clima:

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador?

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Eles faziam parte da “turma do uísque”, talvez a mais sedenta das categorias alcóolicas dos amigos. Ferreira Gullar, por exemplo, era do pessoal do chope, e por isso não esbarrava muito com Braga, mas com Vinicius sim, que transitava por todas as categorias, sem preconceito etílico.

RB e VM 2

Eles foram, de fato, bons bebedores. De Vinicius, em seus shows, tem-se a clara imagem do poeta escoltado por uma garrafa de uísque, que secava no decorrer da noite. Braga, por sua vez, protagonizou uma história inusitada: em seu tempo de cronista da revista Manchete, pediu aos leitores que enviassem garrafas de uísque à redação como presente de Natal. Em um ano, recebeu trinta garrafas. No outro, apenas dez. O pedido ia impresso na própria revista, ainda que seus colegas de crônica se recusassem a assinar a brincadeira: “1960! / Não sei se minh’alma aguenta! / Se o Sabino fez promessa / Pongetti não se interessa / E Paulinho tem mau fígado / Ligue ao barman e diga: do / Melhor uísque me traga / Para o Braga!”.

De modo que a epígrafe deste texto, que é uma junção de frases que Vinicius costumava dizer entre amigos, poderia perfeitamente ter sido escrita por Rubem, embora sua vida não tenha sido sempre tocada nesse ritmo.

Em 1944, alguns anos antes, Rubem Braga acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, para cobrir, como repórter, a segunda guerra mundial. Só dois anos depois, ao retornar para o Brasil, pôde ler o longo poema que Vinicius, saudoso, escrevera em sua homenagem:

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem.

Há, nessa carta-poema, todos os elementos de simplicidade cotidiana que Braga costumava retratar em suas crônicas. Vinicius brindou o amigo, “Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália”, com uma coletânea de assuntos caros ao cronista, distante do mar de Ipanema e privado de ver as moças de maiô. Em “Mensagem a Rubem Braga”, a valorização das coisas desimportantes e banais aparece como uma forma de resistir à brutalidade da guerra. Assim, quase nada há de relevante nas notícias, o que revela o espírito dessa amizade que zelava pelos detalhes da vida simples: fulana está linda, compadre está doente, Drummond tem escrito ótimos poemas, um amigo continua apaixonado, é tempo de caju e abacaxi. Até mesmo o cardápio do almoço é compartilhado.

Além disso, a partir deste poema, é possível fazer o recorte de dois grandes tópicos da obra de Rubem Braga – o deslumbre causado pela mulher e o engajamento social:

Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia)

A temática feminina é recorrente na prosa de Braga. Frequentemente prostrado enquanto vítima ou aprendiz dos “mistérios insondáveis” da mulher, o velho Braga está sempre suspirando ou sofrendo com seus relacionamentos, desejos e frustrações. De fato, Rubem foi um homem entregue às paixões, mas de uma maneira muito diferente de Vinicius, que se casou nove vezes em uma insaciável busca pelo amor – o cupido de seu segundo casamento, aliás, foi o próprio Rubem, que, menos atirado, casou-se apenas uma vez. A melancolia de amores impossíveis parece ter o acompanhado ao longo de toda sua vida.

Outro ponto latente nas crônicas de Braga é a consciência social. Logo após Vinicius ter sua tarde iluminada com o riso de uma moça, ele conta ao amigo de um menino esfomeado. Ora mais tímido, ora mais combativo, Braga nunca se esqueceu da pobreza, que assume um papel de destaque em seus textos – aliás, o tom de engajamento político dita grande parte de sua obra, ainda inédita no mercado editorial. A denúncia da miséria e a exposição da luta de classes, com a crítica ao sistema que explora os desvalidos e enriquece os patrões, contribui para uma discussão pública acerca dos socialmente excluídos, uma vez que as crônicas de Braga circulavam por jornais e revistas populares. Sua oposição ao governo, sobretudo nos anos de Getúlio Vargas, culminou na fundação do semanário Comício, antigetulista em essência, para o qual colaboraram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector (sob o pseudônimo de Teresa Quadros), Antonio Maria e Millôr Fernandes, entre outros. Vale lembrar, também, que em 1947, Braga foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, ao lado de intelectuais como, por exemplo, Antonio Candido.

Braga, Sabino e Vinicius

Braga, Sabino e Vinicius

A resposta literária de Braga ao poeta, no entanto, só viria mais tarde, quando Vinicius já morava em Los Angeles em seu primeiro posto diplomático. Rubem, poeta bissexto, escreveu-lhe Bilhete para Los Angeles. Mas diferente da saudação honrosa que recebeu do parceiro, Braga deixou transparecer o carinho viril ao qual às vezes era dada a amizade:

Tu, que te chamas Vinicius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!

Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!

Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!

Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!

Trata-se, notadamente, de uma brincadeira. O poema de escárnio tem dimensão humorística pela temática e pelo vocabulário, e acaba revelando, também, a pouca afinidade de Braga enquanto poeta. Seu único livro de poemas, Livro de Versos, muito pouco contribuiu para sua obra. Nele, nota-se falta de originalidade e uma forte influência de Manuel Bandeira e do próprio Vinicius. O que há em Braga de poético, e há muito, melhor se desenvolve na prosa. Seu lirismo se tensiona com o texto corrido, suspendendo o ritmo que difere o verso da prosa, resultando numa crônica de cunho muito híbrido entre os gêneros. Não à toa, Braga prefere frases curtas, quase como se fossem versos, carregando-as com a intensidade de cada palavra. O desprezo pelos adjetivos fortalece essa construção lírica. Muitas das crônicas de Braga parecem ser poemas que transbordaram.

O tom de cordial agressividade que se revela era recorrente entre os amigos. Certa vez, Vinicius pediu a Rubem que escrevesse o texto da contracapa de um de seus discos. Braga não escondia de ninguém o desprezo pelas letras do poeta e fazia coro, junto a João Cabral de Melo Neto, para que ele abandonasse o ofício de compositor popular e voltasse ao posto de habilidoso sonetista. Mas acabou cedendo e escreveu o texto. Assim que o recebeu, no entanto, Vinicius rasgou o papel. Com as contas acertadas, os dois saíram para beber.

Quando Vinicius compôs a letra da clássica Garota de Ipanema, Braga fez uma paródia que costumava apresentar pelos bares: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote/ Que vem e que passa/ Num pesado balanço/ A caminho do bar”.

RB, VM, PMC, CB

Vinicius, Braga, Paulo Mendes Campos e Chico Buarque

Muito adiante, já com sessenta anos completos, Vinicius voltou a homenagear o amigo, dessa vez com um soneto – do jeito que Braga gostava. Soneto do sessentenário de Rubem Braga é uma reflexão sobre a vida em decassílabos, de ritmo muito marcado pela aliteração do fonema /s/:

Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos…
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.

São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.

São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos

Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos…
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!

A ideia de vida que recorrentemente aparece na obra de Vinicius se faz notar logo na primeira estrofe: o decorrer da vida não é apenas uma marca no calendário, limitando-se a “frações de tempo” – ele traz consigo todas as marcas de sua trajetória, em “fecundos zodíacos” de tristezas e alegrias. As imagens empregadas em torno dessa concepção são todas astronômicas: zodíaco, cometas, galáxia, mundos, caos sideral, estrelas-guias, sóis. São noções que estão além do nosso próprio entendimento, que nos escapam pela distância e pela dimensão. E que, diferente dos sessentões, resistem à passagem do tempo. Aliás, nem o próprio tempo se aplica no espaço sideral com as mesmas leis que nos regem. Portanto, quando o poeta usa dessas imagens para tratar a vida, a pequenez da condição humana diante desses astros parece ser neutralizada, e o homem se engrandece.

Como se vê, a citação mútua era comum entre os amigos. Vinicius costumava fazê-la com mais frequência. Existem pelo menos mais duas de suas crônicas em que Braga recebe destaque. Em uma delas, Dia de sábado, o poeta retoma o tema da velhice e da fugacidade do tempo:

[…] Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai…

Em outra, anterior, Vinicius conta a experiência engraçada que sua irmã teve com Rubem, quando este foi tapeado por um malandro, que lhe vendeu um canário supostamente treinado para sempre retornar à gaiola. Logo na primeira oportunidade, o bichinho voou para a mata. Braga, homem da roça, sabia reconhecer todos os passarinhos que habitavam sua cobertura. Vinicius diz que chegou a se interessar por ornitologia por sua influência, mas não levou os estudos para frente. Assim como, certa vez, eles decidiram aprender carpintaria, o que, diz Vinicius, “resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura”.

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Mas a grande homenagem de Rubem Braga ao amigo, Vinicius não pôde ler. A crônica Recado de primavera, de 1980, é uma reverência póstuma ao poeta, que morrera alguns meses antes, na banheira de sua própria casa:

Meu caro Vinicius de Moraes,

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris […].

À primeira vista, Rubem parece impassível diante da ausência de Vinicius, mas é sua postura de homem retraído numa rigidez viril que não lhe permite manifestar saudades nem lamentações. Sua maneira de fazê-lo, então, é recorrer novamente aos temas que partilhavam: a natureza, as mulheres e, sobretudo, a observação do cenário urbano. Há qualquer coisa de melancólico na afirmação de que viu, sozinho, as garotas por Ipanema, onde Rubem e Vinicius costumavam pedalar juntos. Depois, sentados em algum boteco para retomar o fôlego da volta, eles observavam o movimento da cidade, com especial atenção às ciclistas. Numa dessas, nasceu a “Balada das meninas de bicicleta”, de Vinicius: “Bicicletai, meninada […]/ Solta a flâmula agitada/ Das cabeleiras em flor/ Uma correndo à gandaia/ Outra com jeito de séria/ Mostrando as pernas sem saia/ Feitas da mesma matéria”.

Escrever ao amigo, então, é um modo de reaproximá-lo, como se vivo estivesse. Em seguida, Braga toma refúgio na descrição dos passarinhos. Aos olhos de um ornitólogo amador, os tico-ticos construindo ninho são um claro sinal da chegada da primavera, que, ao destronar o inverno, carrega em si o símbolo da transformação, ainda que esta, em particular, não seja tão alegre assim. No último parágrafo, ele se despede:

O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

É curioso notar que, no desfecho, Braga até se reconcilia com a faceta de compositor do amigo. E, ao colocar-se como herdeiro de seu posto, o cronista refirma os valores humildes que os aproximavam. É como se, sem Vinicius, ele fosse o responsável por zelar pelas coisas singelas da vida, perpetuando o eco da delicadeza em suas crônicas.

Rubem Braga desempenhou sua função de guardião das ondas, dos tico-ticos e das moças em flor por mais dez anos, até dezembro de 1990, quando, vítima de uma parada respiratória consequente de um tumor na laringe que optou por não tratar, morreu num quarto de hospital, sozinho, como pedira aos amigos.

Cem anos depois, tendo sobrevivido à infalível peneira do tempo, a literatura de Rubem Braga e de Vinicius de Moraes estão presentes, porque necessárias. Mas me pergunto se, mais que isso, não seria preciso reviver certo otimismo cordial que nutriam, muitas vezes ingenuamente, para contrabalancear tantos valores opostos que imperam na sociedade — atualmente, muito mais do conde que do passarinho.

São Paulo, julho e outubro de 2013

EU ME REFERI…

… a Tom Jobim, o maior compositor do Brasil.

… a Pedro Nava, médico e escritor, conhecido por seus livros de memórias. Suicidou-se aos oitenta anos com um tiro na cabeça, numa praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

… aos cronistas Fernando Sabino, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos, colegas de Brava na Manchete.

… Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Antonio Maria e Millôr Fernandes, escritores que contribuíram, entre outros, com o semanário Comício (há, sobre isso, uma boa tese na FFLCH/USP de Samantha dos Santos Gaspar).

… Antonio Candido, crítico literário.

… Ferreira Gullar, poeta, sobre quem já escrevi aqui no site.

… aos poetas Manuel Bandeira, grande influência na obra de Braga, e João Cabral de Melo Neto.

Como referência bibliográfica, é indispensável citar os ensaios de Davi Arrigucci Jr. sobre Braga, assim como a biografia de Marco Antonio de Carvalho.

O olhar certeiro de Antonio Prata

(Foto de Tomás Rangel)

Foto de Tomás Rangel

Muita gente já escreveu sobre a crônica e até agora não chegamos a conclusões muito sólidas. Parece que, às vezes, o gênero faz questão de driblar os teóricos e reinventar-se, adaptando-se a diferentes situações. Filha do jornal com a literatura, alguns consideram que puxou o pai e é, como ele, fadada ao esquecimento. Outros apontam que não é bem por aí, que a mãe teve um papel forte em sua criação e que a crônica pode resistir ao tempo quando flerta com a poesia, por exemplo, transformando-se em algo maior. A verdade é que, desde sempre, poucos tiveram essa capacidade, e talvez por isso muitos digam que a crônica literária corre risco de extinção com tantos primos distantes se apossando de seus espaços, inclusive de seu nome – são os editoriais, as reportagens, os diários, as colunas sociais, as crônicas esportivas etc., gêneros aparentados, mas só do lado paterno; sem nenhum fôlego literário.

Mais otimista, prefiro não montar um dos cavalos do apocalipse – que procriaram e hoje são mais de quatro – e sair anunciando o fim da crônica. Pelo contrário: eu a vejo ainda saudável, com terra nova e fértil pra cultivar. O argumento principal dos que a vêem claudicando é que há algumas décadas a crônica era exercida por muitos dos grandes nomes da nossa literatura e tinha espaço em todos os grandes veículos impressos. Dizem que, atualmente, a crônica perde tanto em número quanto em qualidade, mas eu me pergunto se essa sensação não estaria um pouco condicionada pelo tempo. Vendo as excelentes coletâneas dessa época passada, tem-se a injusta impressão de que não chegaremos lá, com tanta bobagem que é publicada atualmente. Mas é preciso ter calma e entender que isso a que temos acesso é o que sobreviveu à infalível peneira do tempo, são as pedras lapidadas. Pois o que não prestava dos jornais de antigamente já forrou muita gaiola, e hoje não resta nem uma pontinha reciclada daquela celulose. O mesmo acontecerá no futuro – todos esses que aí estão atravancando nosso caminho, eles passarão – de modo que a peteca não cairá tão cedo.

Do argumento contrário ao qual me referi, há um ponto inquestionável, que é o numérico: atualmente, não há tantos cronistas em atividade. Acho que os inquietos do coração, ótimos cronistas em potencial, agora têm muitas outras possibilidades para aplacar a alma. Mas o ponto sobre a qualidade é refutável: temos ótimos cronistas já maduros que não devem nada às gerações passadas – com exceção feita a Rubem Braga, claro, que é um acontecimento insuperável. Pra reforçar essa já sólida linha de frente, vejo se aproximar um valoroso pelotão de gente jovem (ou apenas mais jovem, em alguns casos). Sobre esse grupo, gostaria de dedicar um texto exclusivo, mais detido, de modo que, para evitar que este aqui vire uma tese de mestrado, vou me limitar a falar de apenas um deles: Antonio Prata – que na verdade nem é tão novo assim, pois escreve profissionalmente há mais de dez anos.

Antonio tem à disposição muitos dos ingredientes da crônica. Não cairei na tentação de listar as características que um cronista deve ter, mas estar atento às coisas em volta é condição essencial e por isso mesmo primária. Sem o olhar curioso e ligeiro que percebe detalhes das situações, acho que não é possível fazer crônica. É esse tato apurado que, aliado à capacidade técnica do escritor, vai garantir a malemolência do texto, que vai dar a ele o ritmo e o tom necessários pra ganhar ares de conversa franca, de papo furado, de prosa informal. Eu estaria me repetindo em vão ao dizer que Antonio Prata tem essa intuição de artista, mas acontece que ela foi posta à prova e quero relatar o fato: certa vez, convidei Antonio, Humberto Werneck e o professor Augusto Massi para um evento na Universidade de São Paulo. Era uma homenagem ao centenário de Rubem Braga, e por isso mesmo achei que convinha tocar a mesa em caixa baixa – não combina palestrar sobre crônica cheio de pompa. Tinha que ser meio de improviso, e uma maneira de me preparar para isso era estar despreparado. Sem resumos ou pesquisas, eu conduziria a conversa ao rés-do-chão. De última hora, no entanto, o mediador inexperiente sentiu o calafrio da responsabilidade e convocou todos para uma conversa. Sentamos os quatro para apertar parafusos e combinar alguns sinais, que conduziriam nossas encenações de acordo com o retorno da plateia, que, invariavelmente, ou boceja ou endireita a coluna pra prestar atenção.

Antonio, Humberto, eu e Augusto

Antonio, Humberto, eu e Augusto (Foto de Milena Varallo)

Humberto, entrevistador de vasta experiência, estava me passando uns truques quando uma mulher pediu licença, interrompeu o comitê, me desejou boa sorte e disse que já ia pro local, para garantir uma boa cadeira. Terminada a brevíssima digressão, Antonio sorriu e disse “Pode deixar, Guilherme, já entendi tudo. Eu vou me guiar por essa menina. Enquanto ela estiver sorrindo, sei que posso continuar falando. Se começar a mexer no celular, eu passo a bola”. Pois vejam só: Antonio propôs usá-la como referência porque percebeu que eu estava apaixonado por ela, antes de eu mesmo ter me dado conta disso. Enquanto em mim os sentimentos se confundiam, para o cronista já estava tudo muito claro.

Qualquer pessoa poderia ter chegado à mesma conclusão se eu tivesse declarado alguma obviedade ou começado a babar em estado catatônico, trocando substantivos comuns pelo nome dela. Mas só um exímio observador conseguiria desvendar o caso em segundos, tendo como pista apenas alguns gestos pequenos – o toque das mãos, o olhar perdido, o sorriso meio bobo e o breve suspiro que devo ter confessado quando ela virou as costas.

Outro dia, num restaurante com amigos, esperávamos o garçom quando um dos nossos chegou com o jornal aberto e disse: “nasceu a filha do Antonio Prata”. A crônica sobre Olivia foi passando de mão em mão, e, depois da leitura geral, começamos a debatê-la – afinal, é isso que os estudantes de Letras fazem enquanto a cerveja não chega.

O placar final foi uma goleada favorável, mas uma das bolas acertou a trave: “o Antonio tem uma estrutura repetitiva”, disse um deles. Na hora, pensei que, de fato, um dos maiores desafios do cronista é driblar alguns clichês que costumam se oferecem facilmente pra encerrar uma crônica. Acabei concordando, mas quis entender melhor. O goleiro adversário disse que Prata tem um esquema predileto, que é, a certa altura do texto, fazer um movimento em direção oposta à realidade, em ritmo crescente. Como ilustração, leu em voz alta o trecho da citada crônica em que o pai cola a boca na barriga da mãe e fala ao bebê sobre “o sol, a praia e a cachoeira, a girafa, o pinguim e o canguru, o doce de leite, a manga e o leitão, Toy Story 1, 2 e 3”. Em suma, disse que na caminhada rumo ao absurdo, o cronista vai muito longe e tropeça. Isso é, na frase acima, a partir de “manga”, os elementos citados causam desconcerto no leitor, porque não são coisas do universo dos bebês. O mesmo acontece quando Bill Clinton e Moraes Moreira aparecem numa frase iniciada com “você” e “sua mãe”. Esse recorrente processo esquemático, concluiu meu amigo, funciona como um ralo para a crônica, por onde se esvai a arte. Eu ia respondê-lo, mas a comida veio junto com a conclusão, e a fome falou mais alto.

Mais tarde, com a ideia cozinhando na cabeça, cheguei à conclusão que essa pequena escalada absurda não é ralo nenhum. Não é um esquema, pois sua finalidade não está nela mesmo; nem é mecânica, porque costuma vir dosada e na hora certa. É apenas mais uma das artimanhas do cronista, que leva o leitor na lábia até a beira do precipício e faz que vai se jogar, pra em seguida segurá-lo pela mão e dizer “calma, não é nada disso”, reconduzindo-o em segurança à normalidade. Talvez seja a essa manha que Davi Arrigucci Jr. tenha se referido quando disse que Antonio Prata é “um notável cronista do absurdo, das miudezas malucas do cotidiano”.

Vejo esse recurso mais como marca autoral, um tipo de assinatura que se detecta na obra. Não quero ficar teorizando sobre processos criativos, mas há uma diferença entre algo que é mecânico e algo que não é. Não é preciso dizer, por exemplo, que aquela melodia é do Tom Jobim. Isso a gente já sabe, intuitivamente. Assim, os primeiros acordes nos remetem não apenas a uma agradável combinação de notas, mas ao universo particular de Tom. O lado “artificial” se nota em algumas das letras dadas a essas melodias na época da Bossa Nova, por exemplo. Muitas vezes, evocar a mulher, o amor, o sorriso e a flor pode ser apenas uma solução prática, e por isso vazia de sentido poético.

Não é o caso de Antonio Prata, definitivamente. Na última edição da revista Piauí, o jornalista Mario Sergio Conti publicou um perfil a respeito do cronista. Lá pras tantas, Conti enumera algumas dificuldades que estariam se impondo à crônica atualmente – a crise da imprensa, a internet, a televisão. Não concordo com elas e, como já disse, acho que a crônica está na contramão da imprensa, retomando seu espaço e seu prestígio de décadas atrás. Mas o que me incomodou mesmo foi esse esforço vão de assombrar o autor, como se fosse um falso amigo que quer aconselhar, pero no mucho: “olha, não faça romances, não continue se metendo com a televisão”. Parece uma armadilha. Eu espero que essa semente não vingue, pra mais adiante ninguém querer dizer que Antonio Prata é o cronista da televisão, que seu romance é uma crônica gigante ou maldades similares.

Trata-se, afinal, de um artista maior do que sua assinatura. Não morrerá sufocado, preso ao lugar-comum que criou, embora parte da crítica se esforce para etiquetar tudo, mesmo quando não convém. Esses são os ingênuos. Os mesmos ingênuos que reduzem Van Gogh a “pintor do amarelo”, porque não entendem que o amarelo de suas telas é muito mais do que um pigmento, transbordando qualquer noção de cor – ainda que alguma loja de tintas venda latas de “Amarelo Van Gogh”.

É por isso que Antonio Prata não ficará como o cronista do pequeno absurdo, o cronista da classe média, o cronista meio intelectual, meio de esquerda; mas ficará, com certeza, como o cronista dessa geração.

p.s.: Antonio, não deu certo com a menina; como você sabe, existem os outros.

Taubaté, 19 de julho de 2013

EU ME REFERI…

… ao “Poeminho do contra”, de Mário Quintana.

… à crônica “Sobe o pano”, do Antonio Prata, publicada na Folha de S. Paulo.

… à crônica “Os outros”, do Antonio Prata, publicada no Estado de S. Paulo.

… à orelha do livro “Meio intelectual, meio de esquerda”, escrita pelo professor Davi Arrigucci Jr.

… ao ensaio “A vida ao rés-do-chão”, escrito em 1980 pelo professor Antonio Candido, ainda uma das melhores páginas teóricas sobre a crônica.

… a Humberto Werneck, escritor, jornalista e cronista dominical do Estadão, autor da coletânea “Boa companhia: crônicas”.

… a Augusto Massi, professor de literatura brasileira da USP, que organizou o livro “Retratos parisienses”, com textos do velho Braga.

… ao perfil “No epicentro da barafunda”, que o jornalista Mário Sérgio Conti escreveu sobre Antonio Prata, pra revista Piauí.

E, por fim, tenho a impressão de que essa interpretação do amarelo foi Sartre quem fez, quando disse que, nas telas de Van Gogh, o amarelo já não era amarelo, era melancolia.

Agradeço a Guilherme Magalhães e a Claudio Leal por me arrumarem a matéria da Piauí.