Antonio Candido, Luis Martins e a geração Coca-Cola

Decio de Almeida Prado, Paulo Afonso Mesquita Sampaio, F. Coaracy e Paulo Emílio Salles Gomes, com garrafas não sei de quê

Decio de Almeida Prado, Paulo Afonso Mesquita Sampaio, F. Coaracy e Paulo Emílio Salles Gomes, com garrafas não sei de quê.

Antonio Candido, Decio de Almeida Prado e Gilda de Mello e Souza conversam sobre o Clima, grupo de intelectuais que constituíram. Candido, lembrando de como eram descontraídos, diz que costumavam “sair para fazer excursões na redondeza e tomar chá”. Tomar chá, professor? Lembrei da crônica “Apelidos”, de Luis Martins, boêmio a ponto de ser chamado de Louis Martin do Bar, em alusão ao escritor francês Roger Martin Du Gard, em que, ao lado de Rubem Braga, outro beberrão, caçoava do pessoal da USP. Publicada no dia 3 de janeiro de 1956 em O Estado de S. Paulo, a crônica revisita uma relação conflituosa de mais de dez anos:

“[…] Inventei, sim, uma expressão frequentemente atribuída a Oswald de Andrade que se tornou conhecida nos meios literários, mas cuja circulação ficou apenas a eles limitada: a expressão ‘geração Coca-Cola’, com a qual até hoje se designa o brilhante grupo paulista de Clima.

Posso precisar, até, como ela nasceu. Uma tarde, eu tomava um uísque na antiga Seleta, em companhia de Rubem Braga, quando na velha confeitaria da rua Barão de Itapetininga entraram Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Rui Coelho, Decio de Almeida Prado e outros, de que não me recordo; o tempo viria a nos tornar amigos, mas naquela época, eu (como Rubem Braga) mal os conhecia. Sabíamos ambos, vagamente, que eram rapazes inteligentes, recém-formados pela Faculdade de Filosofia, e que estavam tratando de organizar uma revista de cultura. Apenas nos cumprimentaram e foram sentar-se a outra mesa, mais aos fundos. Rubem, que estava de mau humor nesse dia, fez um comentário qualquer, meio azedo, sobre os petulantes meninos… De frente para eles, eu percebi que quase todos pediam coca-cola ao garção. Voltei-me para Rubem, sorrindo:

– Meu caro, é uma geração de Coca-Cola…

E, acintosamente, exigimos do garção mais dois uísques. No dia seguinte, escrevi uma crônica – primor de incompreensão e parti-pris – em que estranhava a ausência de espírito boêmio, a falta de lirismo juvenil, naqueles moços que começavam a carreira literária escrevendo ensaios, em vez de sonetos, e que, em lugar de poéticas bebedeiras, tomavam inofensivos refrigerantes; na crônica, falava em ‘geração Coca-cola’. Mais tarde, em rodapé da Folha da Manhã, Antonio Candido me deu a resposta, cordial, delicadíssima e – é inútil acrescentar – inteligentíssima. Mas já então começávamos a ser amigos…”

carta-a-luiz-martinsA tal resposta de Antonio Candido, publicada em 17 de setembro de 1944 na Folha da Manhã, era um confronto não só contra Luis Martins – com quem, aliás, Candido se encontrava com frequência na livraria Jaraguá e na cervejaria Franciscano, da Líbero Badaró, onde Mario de Andrade costumava presidir uma mesa –, mas contra todo um grupo de intelectuais que espetava a turma do Clima, como Oswald de Andrade, que os tratava por “chato-boys”. Eram acusados de ser impregnados de sociologia, e, por isso, de “não ter poesia, não ter capacidade de ficção, preferindo um conjunto de disciplinas objetivas e racionais”. Candido começa a partir da crônica mencionada por Luis Martins:

“Como ainda recentemente, ao referir-se de maneira generosa a um grupo de moços, você retoma a questão, pus-me a pensar no problema e a examinar as afirmações feitas sobre ele por você, Sergio Milliet e alguns outros. Falando pro domo, não sei se vou ser parcial ou propor argumentos especiosos. Como, porém, nas suas argumentações há muito de pro domo, ficamos quites”.

E o professor segue em defesa de uma nova postura acadêmica, de um perfil multidisciplinar de pesquisadores que passaram a valorizar questões antes apenas auxiliares. E, lá para as tantas, arremata:

“Você achará talvez que estou jogando bruto ao explicar o fenômeno com uma crueza que pode parecer cinismo. Pense bem, ponha a mão na consciência, tome o seu uísque das cinco horas e depois me dê a resposta…”

Antonio Candido e Tom Jobim, brindando taças de vinho (do programa "3 Antonios e 1 Jobim").

Antonio Candido e Tom Jobim, brindando taças de vinho (do programa “3 Antonios e 1 Jobim”).

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