Rubem Braga versificado

rubem braga

A crônica, sabemos, é um gênero que flerta com a poesia. Muitas são, na verdade, poemas em prosa. Sobra lirismo nesse pedacinho subjetivo do jornal. Prova disso são estes trechos de crônicas de Rubem Braga, também autor de um livro de poemas, quebradas em versos. Não deve nada aos seus poetas contemporâneos. A brincadeira foi feita no número 816 do Suplemento Literário de Minas Gerais. Só melhorei e modernizei um pouco a métrica, basicamente.

*

Não mais aflitos
(crônica de Um pé de milho, maio de 1946)

Vamos agradecer a brisa
na cara suada;
a mulher
com luz nos olhos;
o menino, a onda,
o pássaro, o chão.

O bom chão;
dormir no chão.

Morrer,
descansar no bom
úmido chão,
não mais imprudentes,
não mais aflitos,
não mais aflitos!

 *

Ao crepúsculo, a mulher…
(crônica de A traição das elegantes, abril de 1956, originalmente publicada com o título de “Momento”)

Não,
Deus não tem facilidade de desenhar.

Ele faz e refaz
sem cessar
Suas figuras,
porque o erro
e a desídia dos homens
entorpecem Sua mão:
de geração em geração,
que longa paciência Ele não teve
para juntar a essa linha do queixo
essa orelha breve,
para firmar bem a polpa da panturrilha.

Sim,
foi a própria mão divina
em um momento difícil
e feliz.

Depois Ele disse: anda…
E ela começou a andar
entre os humanos.

Agora está aqui
entardecendo;

A brisa em seus cabelos
pensa melancolias.

As unhas são rubras;
os cabelos também ela os pintou;
é uma mulher de nosso tempo
mas neste momento,
perto do mar,
é menos uma pessoa
que um sonho de onda,
fantasia de luz
entre nuvens,
avideusa
trêmula,
evanescente
e eterna.

Mas para que
despetalar palavras tolas
sobre sua cabeça?
Na verdade
não há o que dizer;
apenas olhar,
olhar como quem reza,
e depois,
antes que a noite desça de uma vez,
partir.

*

Às duas da tarde de domingo
(crônica de A traição das elegantes, setembro de 1957, originalmente publicada com o título de “Sobre um momento”)

mas quero que saibas
que te vejo apenas como
eras naquele momento,
teu corpo ainda molhado
do mar às duas da tarde;

e milhares,
milhões de relógios
eternamente trabalhando
contra nós
nos bolsos,
nos pulsos,
nas paredes,
todos cessaram de se mover
porque naquele momento
eras bela e pura
como uma deusa
e eras minha eternamente;
eternamente.

Naquele edifício
daquela rua,
naquele apartamento,
entre aquelas paredes
e aquele feixe de sol,
eternamente.

Além das nuvens,
além dos mares,
eternamente,
às duas da tarde
de domingo
eternamente.

Anúncios

4 comentários sobre “Rubem Braga versificado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s