A história da Editora do Autor, por Rubem Braga

Vinicius de Moraes, Fernando Sabino e Rubem Braga autografam livros em Vitoria, no projeto Encontro marcado_jpg

A Editora do Autor é um marco na história editorial do Brasil. Traduziu Jean-Paul Sartre e apostou em Salinger com seu O apanhador no campo de centeio, recusado pela Civilização Brasileira. Levou lá pra cima o nível das antologias poéticas. Seu feito mais importante, porém, foi dar à crônica a possibilidade de inserir-se de vez no mercado. Foi a editora mais importante para a estruturação do gênero em livro. Recupero crônica de Rubem Braga sobre os bastidores da editora, publicada na Manchete de 01/10/60.

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braga

Confissões de um jovem editor, por Rubem Braga

Quando meu amigo Juca fundou o “Juca’s Bar”, fiz uma crônica meio alegre meio triste dizendo que o Juca tinha passado para o outro lado do balcão.

Sinto-me um pouco assim agora, virando editor. Certamente nem por isso deixarei de escrever, como o Juca não deixou de tomar seu uísque.

Esse negócio da Editora do Autor (será negócio mesmo?) nasceu de uma conversa minha com Fernando Sabino e outra dele com o Dr. Walter Acosta, autor de um Processo Penal e outras obras jurídicas. Éramos três autores e nenhum de nós tinha queixa de seu editor – muito menos eu, que sou amigo de José Olympio desde o tempo em que ele só tinha livraria em São Paulo. Mas achamos que editando nós mesos nossos livros poderíamos ganhar mais que os tradicionais 10 por cento sobre o preço de capa – e sobretudo editar quanto e quando nos desse na telha. Começaríamos por editar nossos próprios livros; logo acertamos mais dois, de dois amigos do peito, Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Os leitores estão vendo que aí estão três cronistas da Manchete; e se não convidamos o Henrique Pongetti, foi apenas porque os Pongetti também são editores (Gostou do também, Rogério?).

Os amigos Vinicius e Mendes Campos entram como sócios de emergência, pois financiarão apenas seus próprios livros; o poeta lançará a segunda edição (aumentada) de sua Antologia, e Paulo fará um livro de crônicas – O cego de Ipanema, incluindo suas melhores crônicas aparecidas em Manchete. Eu farei um novo livro de crônicas – Ai de ti, Copacabana! e Fernando uma seleção de suas histórias sob o título O homem nu.

Os quatro livros serão lançados em fins de outubro em uma tarde conjunta de autógrafos, e como não confiamos muito em nossa capacidade de atrair público (a não ser o Vinicius, que toca violão e faz samba) estamos pedindo a ajuda de alguns artistas. Caymmi e Bonfá já toparam, o que não é dizer pouco. É possível que nós quatro, auto-editados ou auto-editores, façamos o mesmo movimento em outras praças do País, a começar por São Paulo.

Mas quando tudo isso estava combinado apareceu Jean-Paul Sartre; encontrei-me com ele na Bahia e falei na possibilidade de publicar em livro suas reportagens sobre a revolução de Cuba que estavam saindo em jornais brasileiros. Jorge Amado opinou a favor, eu me entendi com a Prensa Latina, Sartre fez questão absoluta de abrir mão de seus direitos autorais (é o autor ideal!) e mobilizando vários amigos tradutores e botando a gráfica do bom Borsoi em regime de emergência, fizemos em 7 dias a tradução, o livro e o lançamento do livro no Super Shopping Center, em Copacabana!

Foi uma virada terrível; mas o fato é que agora já nos sentimos editores. Queremos avisar aos jovens autores incompreendidos que eles devem procurar o José Olympio ou o Ênio da Civilização, ou a Globo – enfim, os editores tradicionais, que já têm capital bastante para arriscar em livros de talentos novos. Nós ainda não podemos. Em todo caso estudaremos com prazer qualquer proposta de livro, e pediremos o parecer da Comissão Consultiva para isso designada: o premier Lumumba, o Presidente Kasavubu e o Coronel Mobutu. As decisões favoráveis devem ser tomadas por unanimidade…

O leitor dirá que tudo isso está cheirando a propaganda comercial. Que fazer, se virei homem de negócios? Qualquer reserva para livraria ou pedido para reembolso postal deve ser dirigido à Editora do Autor, Rua Araújo Porto Alegre, 70, grupo 413, Rio, telefone 42-9421. (Achei meio exagerado chamar aquelas salinhas de “grupo”, mas o Acosta disse que isso dá boa impressão no interior).

Rubem Braga versificado

rubem braga

A crônica, sabemos, é um gênero que flerta com a poesia. Muitas são, na verdade, poemas em prosa. Sobra lirismo nesse pedacinho subjetivo do jornal. Prova disso são estes trechos de crônicas de Rubem Braga, também autor de um livro de poemas, quebradas em versos. Não deve nada aos seus poetas contemporâneos. A brincadeira foi feita no número 816 do Suplemento Literário de Minas Gerais. Só melhorei e modernizei um pouco a métrica, basicamente.

*

Não mais aflitos
(crônica de Um pé de milho, maio de 1946)

Vamos agradecer a brisa
na cara suada;
a mulher
com luz nos olhos;
o menino, a onda,
o pássaro, o chão.

O bom chão;
dormir no chão.

Morrer,
descansar no bom
úmido chão,
não mais imprudentes,
não mais aflitos,
não mais aflitos!

 *

Ao crepúsculo, a mulher…
(crônica de A traição das elegantes, abril de 1956, originalmente publicada com o título de “Momento”)

Não,
Deus não tem facilidade de desenhar.

Ele faz e refaz
sem cessar
Suas figuras,
porque o erro
e a desídia dos homens
entorpecem Sua mão:
de geração em geração,
que longa paciência Ele não teve
para juntar a essa linha do queixo
essa orelha breve,
para firmar bem a polpa da panturrilha.

Sim,
foi a própria mão divina
em um momento difícil
e feliz.

Depois Ele disse: anda…
E ela começou a andar
entre os humanos.

Agora está aqui
entardecendo;

A brisa em seus cabelos
pensa melancolias.

As unhas são rubras;
os cabelos também ela os pintou;
é uma mulher de nosso tempo
mas neste momento,
perto do mar,
é menos uma pessoa
que um sonho de onda,
fantasia de luz
entre nuvens,
avideusa
trêmula,
evanescente
e eterna.

Mas para que
despetalar palavras tolas
sobre sua cabeça?
Na verdade
não há o que dizer;
apenas olhar,
olhar como quem reza,
e depois,
antes que a noite desça de uma vez,
partir.

*

Às duas da tarde de domingo
(crônica de A traição das elegantes, setembro de 1957, originalmente publicada com o título de “Sobre um momento”)

mas quero que saibas
que te vejo apenas como
eras naquele momento,
teu corpo ainda molhado
do mar às duas da tarde;

e milhares,
milhões de relógios
eternamente trabalhando
contra nós
nos bolsos,
nos pulsos,
nas paredes,
todos cessaram de se mover
porque naquele momento
eras bela e pura
como uma deusa
e eras minha eternamente;
eternamente.

Naquele edifício
daquela rua,
naquele apartamento,
entre aquelas paredes
e aquele feixe de sol,
eternamente.

Além das nuvens,
além dos mares,
eternamente,
às duas da tarde
de domingo
eternamente.

50 verbetes para um dicionário de literatura brasileira, por Drummond

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Publicado em 15/08/52 no Comício, semanário criado por Rubem Braga, Joel Silveira e Rafael Corrêa de Oliveira.

*

ACADEMIA – Instituição que distribui prêmios de quatro mil cruzeiros, sujeito a desconto, não convindo por isso ser atacada, embora também não seja distinto elogiá-la publicamente.

ADMIRAÇÃO – Fenômeno peculiar à adolescência, como as espinhas e a muda de voz, desaparece de uma hora para outra ou se converte em auto-admiração.

AMIGO – Escritor de muito talento, até segunda ordem.

ANTOLOGIA – Espécie de ônibus ou lotação, recomendável para a estreia do literato que tenha pressa de chegar à posteridade.

ASSOCIAÇÃO DE ESCRITORES – Partido pró ou contra alguma coisa alheia à classe dos escritores.

ATAQUE – Maneira explosiva de conseguir que sejamos notados e mesmo respeitados, se praticada habilmente.

BAR – Lugar onde as pessoas de talento continuam a tê-lo, e as que não o têm o adquirem provisoriamente, desde que não falem.

BIBLIOTECA – Lugar de passagem; seguido do adjetivo Nacional, não costuma ser frequentado.

CAFÉ – Sítio mitológico onde os antigos se reuniam para ler seus escritos e ouvir com resignação os do próximo.

CARTA – Instrumento de comunicação em desuso pelos seus inconvenientes; o destinatário a divulgava caído ou averbava no Registro de Títulos, para oprimir o remetente.

COLOFÃO – Inscrição para certificar ao leitor, em certas obras, que tudo tem limite.

CONFERÊNCIA – Ato a que se chega atrasado e do qual se sai antes de terminar, causando irritação e inveja ao conferencista.

CONTO – Narrativa em que deve acontecer alguma coisa ou nada, conforme seja o autor partidário do clube Maupassant ou do clube Mansfield; no segundo caso, também chamada conversa mole.

DEDICATÓRIA – Letra promissória de valor indeterminado, cujo resgate pode deixar de ser feito sem dano para o crédito do emitente.

DIÁRIO – Livro ou caderno de pelo menos 200 páginas, onde se escreve debaixo do segredo aquilo que se deseja levar ao conhecimento de todo mundo.

DIREITO AUTORAL – Direito que assiste ao autor de editar-se à própria custa.

ECOLÓGICO – Diz-se do romance que tenha mais cheiro de terra do que estilo. Variante: telúrico.

EDITOR – Indivíduo mesquinho e destituído de imaginação, que recusou os nossos originais.

ELOGIO – Vide gazua, maconha e compromisso.

ESCRITOR – Entidade indefinível; em caso de emergência, aquele que escreveu um bilhete, ou poderia tê-lo escrito.

EX-LIBRIS – Artifício com que o dono de um livro se torna um pouco seu autor, colaborando numa página.

EXISTENCIALISTA – Menor cuidadosamente despenteada, com ou sem franja na testa, que cultiva o complexo de Eletra das 17 às 19 horas no bar, e mais tarde na boate; seus autores de cabeceira são Heidegger, Jean Marais, Sartre e Prevert-Kosma.

50 verbetes - drummond

GERAÇÃO – Maneira coletiva e rotativa de ter talento; há casos de indivíduos que mudam de geração.

GLÓRIA – Faculdade de conceder autógrafos durante a conferência ou a exposição, sem ser o conferencista ou o pintor.

HERMETISMO – Resultado imprevisto e feliz da pobreza de vocabulário.

ILUSTRADOR – Desenhista que se abstém de ler o poema ou o conto, a fim de melhor interpretá-lo.

KAFKA – Escritor tcheco, imitador de alguns escritores brasileiros.

LEITURA – Vício secreto; a higiene mental o proscreve como nocivo à carreira literária.

LIVRARIA – Lugar onde as moças sem namorado vão comprar romances antes de partir em férias.

MEMÓRIAS – Aplicação da capacidade de mentir, pela sua conversão em prazer e renda.

MENSAGEM – Conteúdo de uma obra literária, que afina com a nossa convicção ou tendência, ou que simplesmente lhe atribuímos num momento de irreflexão.

MESTRE – Designação satírica que infunde à vítima certo prazer.

MÉTRICA – Arte de fazer passar pelos dedos o que não entrou espontaneamente pela orelha.

NOVO – Indivíduo de idade indeterminada, que fala mal dos outros de certa idade.

ORELHA – Dizeres na borda da capa de um livro, que dispensam a leitura dele; não devem ser grandes.

POETA DO POVO – Indivíduo encarregado de evitar que o povo goste de poesia.

PREFÁCIO – Texto laudatório assinado por um amigo do autor, e ultimamente substituído pela orelha (vide este nome), de autoria do próprio escritor.

PROVÍNCIA – Terra assaz deliciosa, depois que o natural da mesma se mudou para o Rio.

QUARENTA E CINCO – Número cabalístico, que esconjura os maus espíritos e habilita ao conhecimento de T. S. Eliot.

REVISOR – Autor de algumas das melhores páginas da literatura brasileira.

REVISTA – Peça de artilharia grossa, para conquista de posição ou situação literária; provida de entranhas humanas, padece às vezes de comoção intestina.

RIMA – Repetição de som no fim de dois ou mais versos, produzindo efeito desagradável em nossos poemas; recurso vil nos dos outros.

ROMANCISTA DO POVO – Técnico em palavrões.

SONETO – Pedra de toque do poeta; usa-se atualmente o shakespeariano, quer na disposição formal quer nos costumes.

SUPLEMENTO LITERÁRIO – Ajuntamento lícito ou ilícito de escritores, conforme fazemos ou não parte dele.

TRADUTOR – Indivíduo paciente, que manipula duas ou mais línguas, para não ser autor em nenhuma.

TRINTA – Irmão pobre de vinte e dois.

UÍSQUE – Designação geral de uma série de autores escoceses, de conhecimento e cultivo obrigatório para uma boa reputação literária; os escritores norte-americanos do mesmo gênero não são muito manuseados.

VELHO – Indivíduo que, mesmo usando óculos bifocais, não enxerga a nossa grandeza.

VINTE E DOIS – Tigre, na classificação do Barão de Drummond; palhaço, no consenso da nova geração.

Como se tornar um escritor, por Neil Gaiman

Pediram ao Neil Gaiman um conselho sobre como se tornar escritor. Por brincadeira, traduzi a resposta que ele publicou em seu tumblr:

Neil Gaiman, foto da editora Intrínseca

Neil Gaiman, foto da editora Intrínseca

Anote suas ideias. Se elas vão ser histórias, tente contar as histórias que você gostaria de ler. Termine as coisas que você começar a escrever. Faça isso muitas vezes e você será um escritor. A única maneira de fazer isso é fazendo.

Imagine, estou brincando. Existem maneiras muito mais fáceis de escrever. Por exemplo: no topo de uma montanha distante cresce uma árvore de folhas prateadas. Uma vez por ano, no amanhecer do dia trinta de abril, essa árvore dá cinco flores que, durante a próxima hora, dão uma frutinha cada, que primeiro é verde, depois preta, depois dourada.

No instante em que as cinco frutas se tornarem douradas, cinco corvos brancos que estavam esperando na montanha camuflados na neve vão mergulhar na árvore, arrancando gananciosamente todas as suas frutinhas, e vão voar para longe, às gargalhadas.

Com suas próprias mãos, você precisa capturar o menor destes corvos e forçá-lo a entregar a fruta (os corvos não as engolem. Eles as carregam, cruzando todo o oceano, até o jardim de um mago para depositá-las, uma a uma, na boca de sua filha, que só despertará de seu feitiço quando tiver ingerido mil dessas frutinhas). Quando você tiver obtido a fruta dourada, precisará deixá-la debaixo da língua e voltar direto para a sua casa.

Durante a próxima semana, você não poderá falar com ninguém, nem mesmo com seus entes queridos ou um policial que te parar por excesso de velocidade. Não diga nada. Não durma. Deixe a fruta quieta debaixo de sua língua.

À meia-noite do sétimo dia, vá ao lugar mais alto de sua cidade (é normal precisar escalar telhados nesta etapa) e, com a frutinha presa debaixo da língua, recite todos os versos do Ninho de Mafagafos. Não deixe a fruta escapar da língua. Não erre nenhuma palavra sequer, nem gagueje no Um ninho de mafagafa com sete mafagafinhos, quem desmafagaguifar bom desmafagaguifador será.

Então, e só então, você poderá engolir a fruta. Retorne à sua casa o mais rápido possível, pois você só terá no máximo meia hora antes de cair em um sono pesado.

Ao acordar pela manhã, você estará apto a organizar pensamentos e ideias no papel, e aí será um escritor.

Sobreviventes do verão, por Alcides Villaça

Com Alcides Villaça. Foto por Bernardo Ceccantini.

Com Alcides Villaça, por Bernardo Ceccantini

Faz mais de um ano que não publico nada por aqui. Durante 2014, fui cronista semanal da imprensa de Taubaté e não consegui escrever mais ensaios, que era a proposta primeira do quartacapa. Como essas croniquinhas são tudo que tenho para oferecer, resolvi reviver o site com um vídeo do poeta e professor Alcides Villaça lendo uma delas. “Sobreviventes do verão” é o primeiro de uma série de vídeos que pretendo fazer para promover a antologia de crônicas, ainda sem editora.

A produção é do pessoal da Chromatk Filmes, a quem agradeço muito.