Os cães engarrafados

(Este ensaio foi publicado na terceira edição da Cisma, revista de crítica literária e tradução feita pelos alunos da graduação do curso de Letras/USP, cujo conteúdo está disponível no www.revistacisma.com)

RB e VM

“Nunca vi boa amizade nascer em leiteria – o uísque é o melhor amigo do homem.
Uísque é o cachorro engarrafado”
(Vinicius de Moraes)

Rubem Braga e Vinicius de Moraes, cujos centenários agora se comemoram, compartilham mais que o ano de nascimento. Rubem, um de nossos maiores cronistas, foi também poeta. Vinicius, um de nossos maiores poetas, foi também cronista. Ambos exerceram postos diplomáticos, e, durante muitos anos, cultivaram uma amizade que respingou na literatura em forma de mútuas homenagens.

Entre as duas obras, existem muitos pontos convergentes. Talvez o mais notável seja o apreço às coisas efêmeras e pequenas, pelo que já foi e pelo inalcançável, pelo interior e pela simplicidade. Além da literatura, a afinidade entre os dois se evidencia também através das personalidades, que podem sugerir algum esclarecimento de questões referentes às obras: foram homens de uma generosidade atípica, que encaravam a vida de uma perspectiva humilde, numa atitude de certa leniência diante de alguns dos mistérios do mundo – mas de constante questionamento e inquietação a respeito da condição humana, seja pelo indivíduo ou pela coletividade.

Bom exemplo dessa cordialidade é o fato de que tanto Vinicius quanto Rubem foram renomados anfitriões. A casa de Vinicius de Moraes permanecia sempre aberta, sobretudo nas décadas de 50 e 60. Eram frequentes as reuniões de amigos, artistas e intelectuais, que se juntavam em saraus regados a uísque e violão. Os versos de Água de beber, parceria do poeta com Antonio Carlos Jobim em 1961, parecem dar conta desse espírito generoso: “a minha casa vive aberta/ abri todas as portas do coração”. E mais do que abrir a própria casa, Vinicius parece ter sido o responsável por desencadear um destrancamento geral de portas entre muitos artistas da cidade, que passaram a promover em suas casas reuniões musicais muito propícias àquele Rio de Janeiro que respirava uma bossa nova.

Rubem Braga, por sua vez, jamais trancava a porta de sua famosa cobertura em Ipanema, de onde se tem uma vista privilegiada do mar. Qualquer amigo que quisesse desfrutar de seu jardim suspenso sem aviso prévio, bastava pegar a escada do décimo segundo andar, empurrar a porta e servir-se de uísque. Inclusive quando o próprio cronista não estava em casa – ou, então, quando ele nem se levantava de sua rede diante da presença dos amigos. Mas, diferente da morada de Vinicius, os encontros na cobertura de Braga não eram tão festivos. Reservado e tido como mal humorado, Rubem preferia a calma das conversas, e, não raro, dos monólogos: contam que muitas vezes ele só ouvia o que os outros tinham a dizer.

E muitos dos convidados para as festas de Vinicius eram, também, frequentadores da cobertura, pois ambos participavam da mesma turma de boêmios e intelectuais que se encontrava nos bares do Rio – entre eles, o Amarelinho, o Vermelhinho, o Lidador e o Westphalia. Vinicius chegou a incluí-los em uma descontraída balada que serve como ilustração do clima:

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador?

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Eles faziam parte da “turma do uísque”, talvez a mais sedenta das categorias alcóolicas dos amigos. Ferreira Gullar, por exemplo, era do pessoal do chope, e por isso não esbarrava muito com Braga, mas com Vinicius sim, que transitava por todas as categorias, sem preconceito etílico.

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Eles foram, de fato, bons bebedores. De Vinicius, em seus shows, tem-se a clara imagem do poeta escoltado por uma garrafa de uísque, que secava no decorrer da noite. Braga, por sua vez, protagonizou uma história inusitada: em seu tempo de cronista da revista Manchete, pediu aos leitores que enviassem garrafas de uísque à redação como presente de Natal. Em um ano, recebeu trinta garrafas. No outro, apenas dez. O pedido ia impresso na própria revista, ainda que seus colegas de crônica se recusassem a assinar a brincadeira: “1960! / Não sei se minh’alma aguenta! / Se o Sabino fez promessa / Pongetti não se interessa / E Paulinho tem mau fígado / Ligue ao barman e diga: do / Melhor uísque me traga / Para o Braga!”.

De modo que a epígrafe deste texto, que é uma junção de frases que Vinicius costumava dizer entre amigos, poderia perfeitamente ter sido escrita por Rubem, embora sua vida não tenha sido sempre tocada nesse ritmo.

Em 1944, alguns anos antes, Rubem Braga acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, para cobrir, como repórter, a segunda guerra mundial. Só dois anos depois, ao retornar para o Brasil, pôde ler o longo poema que Vinicius, saudoso, escrevera em sua homenagem:

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem.

Há, nessa carta-poema, todos os elementos de simplicidade cotidiana que Braga costumava retratar em suas crônicas. Vinicius brindou o amigo, “Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália”, com uma coletânea de assuntos caros ao cronista, distante do mar de Ipanema e privado de ver as moças de maiô. Em “Mensagem a Rubem Braga”, a valorização das coisas desimportantes e banais aparece como uma forma de resistir à brutalidade da guerra. Assim, quase nada há de relevante nas notícias, o que revela o espírito dessa amizade que zelava pelos detalhes da vida simples: fulana está linda, compadre está doente, Drummond tem escrito ótimos poemas, um amigo continua apaixonado, é tempo de caju e abacaxi. Até mesmo o cardápio do almoço é compartilhado.

Além disso, a partir deste poema, é possível fazer o recorte de dois grandes tópicos da obra de Rubem Braga – o deslumbre causado pela mulher e o engajamento social:

Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia)

A temática feminina é recorrente na prosa de Braga. Frequentemente prostrado enquanto vítima ou aprendiz dos “mistérios insondáveis” da mulher, o velho Braga está sempre suspirando ou sofrendo com seus relacionamentos, desejos e frustrações. De fato, Rubem foi um homem entregue às paixões, mas de uma maneira muito diferente de Vinicius, que se casou nove vezes em uma insaciável busca pelo amor – o cupido de seu segundo casamento, aliás, foi o próprio Rubem, que, menos atirado, casou-se apenas uma vez. A melancolia de amores impossíveis parece ter o acompanhado ao longo de toda sua vida.

Outro ponto latente nas crônicas de Braga é a consciência social. Logo após Vinicius ter sua tarde iluminada com o riso de uma moça, ele conta ao amigo de um menino esfomeado. Ora mais tímido, ora mais combativo, Braga nunca se esqueceu da pobreza, que assume um papel de destaque em seus textos – aliás, o tom de engajamento político dita grande parte de sua obra, ainda inédita no mercado editorial. A denúncia da miséria e a exposição da luta de classes, com a crítica ao sistema que explora os desvalidos e enriquece os patrões, contribui para uma discussão pública acerca dos socialmente excluídos, uma vez que as crônicas de Braga circulavam por jornais e revistas populares. Sua oposição ao governo, sobretudo nos anos de Getúlio Vargas, culminou na fundação do semanário Comício, antigetulista em essência, para o qual colaboraram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector (sob o pseudônimo de Teresa Quadros), Antonio Maria e Millôr Fernandes, entre outros. Vale lembrar, também, que em 1947, Braga foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, ao lado de intelectuais como, por exemplo, Antonio Candido.

Braga, Sabino e Vinicius

Braga, Sabino e Vinicius

A resposta literária de Braga ao poeta, no entanto, só viria mais tarde, quando Vinicius já morava em Los Angeles em seu primeiro posto diplomático. Rubem, poeta bissexto, escreveu-lhe Bilhete para Los Angeles. Mas diferente da saudação honrosa que recebeu do parceiro, Braga deixou transparecer o carinho viril ao qual às vezes era dada a amizade:

Tu, que te chamas Vinicius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!

Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!

Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!

Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!

Trata-se, notadamente, de uma brincadeira. O poema de escárnio tem dimensão humorística pela temática e pelo vocabulário, e acaba revelando, também, a pouca afinidade de Braga enquanto poeta. Seu único livro de poemas, Livro de Versos, muito pouco contribuiu para sua obra. Nele, nota-se falta de originalidade e uma forte influência de Manuel Bandeira e do próprio Vinicius. O que há em Braga de poético, e há muito, melhor se desenvolve na prosa. Seu lirismo se tensiona com o texto corrido, suspendendo o ritmo que difere o verso da prosa, resultando numa crônica de cunho muito híbrido entre os gêneros. Não à toa, Braga prefere frases curtas, quase como se fossem versos, carregando-as com a intensidade de cada palavra. O desprezo pelos adjetivos fortalece essa construção lírica. Muitas das crônicas de Braga parecem ser poemas que transbordaram.

O tom de cordial agressividade que se revela era recorrente entre os amigos. Certa vez, Vinicius pediu a Rubem que escrevesse o texto da contracapa de um de seus discos. Braga não escondia de ninguém o desprezo pelas letras do poeta e fazia coro, junto a João Cabral de Melo Neto, para que ele abandonasse o ofício de compositor popular e voltasse ao posto de habilidoso sonetista. Mas acabou cedendo e escreveu o texto. Assim que o recebeu, no entanto, Vinicius rasgou o papel. Com as contas acertadas, os dois saíram para beber.

Quando Vinicius compôs a letra da clássica Garota de Ipanema, Braga fez uma paródia que costumava apresentar pelos bares: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote/ Que vem e que passa/ Num pesado balanço/ A caminho do bar”.

RB, VM, PMC, CB

Vinicius, Braga, Paulo Mendes Campos e Chico Buarque

Muito adiante, já com sessenta anos completos, Vinicius voltou a homenagear o amigo, dessa vez com um soneto – do jeito que Braga gostava. Soneto do sessentenário de Rubem Braga é uma reflexão sobre a vida em decassílabos, de ritmo muito marcado pela aliteração do fonema /s/:

Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos…
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.

São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.

São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos

Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos…
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!

A ideia de vida que recorrentemente aparece na obra de Vinicius se faz notar logo na primeira estrofe: o decorrer da vida não é apenas uma marca no calendário, limitando-se a “frações de tempo” – ele traz consigo todas as marcas de sua trajetória, em “fecundos zodíacos” de tristezas e alegrias. As imagens empregadas em torno dessa concepção são todas astronômicas: zodíaco, cometas, galáxia, mundos, caos sideral, estrelas-guias, sóis. São noções que estão além do nosso próprio entendimento, que nos escapam pela distância e pela dimensão. E que, diferente dos sessentões, resistem à passagem do tempo. Aliás, nem o próprio tempo se aplica no espaço sideral com as mesmas leis que nos regem. Portanto, quando o poeta usa dessas imagens para tratar a vida, a pequenez da condição humana diante desses astros parece ser neutralizada, e o homem se engrandece.

Como se vê, a citação mútua era comum entre os amigos. Vinicius costumava fazê-la com mais frequência. Existem pelo menos mais duas de suas crônicas em que Braga recebe destaque. Em uma delas, Dia de sábado, o poeta retoma o tema da velhice e da fugacidade do tempo:

[...] Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai…

Em outra, anterior, Vinicius conta a experiência engraçada que sua irmã teve com Rubem, quando este foi tapeado por um malandro, que lhe vendeu um canário supostamente treinado para sempre retornar à gaiola. Logo na primeira oportunidade, o bichinho voou para a mata. Braga, homem da roça, sabia reconhecer todos os passarinhos que habitavam sua cobertura. Vinicius diz que chegou a se interessar por ornitologia por sua influência, mas não levou os estudos para frente. Assim como, certa vez, eles decidiram aprender carpintaria, o que, diz Vinicius, “resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura”.

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Ilustração do João Silva para o centenário de Vinicius

Mas a grande homenagem de Rubem Braga ao amigo, Vinicius não pôde ler. A crônica Recado de primavera, de 1980, é uma reverência póstuma ao poeta, que morrera alguns meses antes, na banheira de sua própria casa:

Meu caro Vinicius de Moraes,

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris [...].

À primeira vista, Rubem parece impassível diante da ausência de Vinicius, mas é sua postura de homem retraído numa rigidez viril que não lhe permite manifestar saudades nem lamentações. Sua maneira de fazê-lo, então, é recorrer novamente aos temas que partilhavam: a natureza, as mulheres e, sobretudo, a observação do cenário urbano. Há qualquer coisa de melancólico na afirmação de que viu, sozinho, as garotas por Ipanema, onde Rubem e Vinicius costumavam pedalar juntos. Depois, sentados em algum boteco para retomar o fôlego da volta, eles observavam o movimento da cidade, com especial atenção às ciclistas. Numa dessas, nasceu a “Balada das meninas de bicicleta”, de Vinicius: “Bicicletai, meninada [...]/ Solta a flâmula agitada/ Das cabeleiras em flor/ Uma correndo à gandaia/ Outra com jeito de séria/ Mostrando as pernas sem saia/ Feitas da mesma matéria”.

Escrever ao amigo, então, é um modo de reaproximá-lo, como se vivo estivesse. Em seguida, Braga toma refúgio na descrição dos passarinhos. Aos olhos de um ornitólogo amador, os tico-ticos construindo ninho são um claro sinal da chegada da primavera, que, ao destronar o inverno, carrega em si o símbolo da transformação, ainda que esta, em particular, não seja tão alegre assim. No último parágrafo, ele se despede:

O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

É curioso notar que, no desfecho, Braga até se reconcilia com a faceta de compositor do amigo. E, ao colocar-se como herdeiro de seu posto, o cronista refirma os valores humildes que os aproximavam. É como se, sem Vinicius, ele fosse o responsável por zelar pelas coisas singelas da vida, perpetuando o eco da delicadeza em suas crônicas.

Rubem Braga desempenhou sua função de guardião das ondas, dos tico-ticos e das moças em flor por mais dez anos, até dezembro de 1990, quando, vítima de uma parada respiratória consequente de um tumor na laringe que optou por não tratar, morreu num quarto de hospital, sozinho, como pedira aos amigos.

Cem anos depois, tendo sobrevivido à infalível peneira do tempo, a literatura de Rubem Braga e de Vinicius de Moraes estão presentes, porque necessárias. Mas me pergunto se, mais que isso, não seria preciso reviver certo otimismo cordial que nutriam, muitas vezes ingenuamente, para contrabalancear tantos valores opostos que imperam na sociedade — atualmente, muito mais do conde que do passarinho.

São Paulo, julho e outubro de 2013

EU ME REFERI…

… a Tom Jobim, o maior compositor do Brasil.

… a Pedro Nava, médico e escritor, conhecido por seus livros de memórias. Suicidou-se aos oitenta anos com um tiro na cabeça, numa praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

… aos cronistas Fernando Sabino, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos, colegas de Brava na Manchete.

… Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Antonio Maria e Millôr Fernandes, escritores que contribuíram, entre outros, com o semanário Comício (há, sobre isso, uma boa tese na FFLCH/USP de Samantha dos Santos Gaspar).

… Antonio Candido, crítico literário.

… Ferreira Gullar, poeta, sobre quem já escrevi aqui no site.

… aos poetas Manuel Bandeira, grande influência na obra de Braga, e João Cabral de Melo Neto.

Como referência bibliográfica, é indispensável citar os ensaios de Davi Arrigucci Jr. sobre Braga, assim como a biografia de Marco Antonio de Carvalho.

Dois senhores cronistas

(Este texto foi apresentado como introdução ao evento Voz do Escritor, organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, no dia 24 de outubro. Para falar sobre a crônica, os convidados eram Humberto Werneck e Ivan Angelo)

Humberto, Ivan e eu, lendo a introdução (Foto de Isabela Benassi)

Conta Fernando Sabino que, certa vez, João Guimarães Rosa lhe telefonou e perguntou o que estava fazendo. Ao responder que tentava escrever uma peça de teatro, ouviu do autor de Grande Sertão: Veredas o seguinte conselho: “Não faça biscoitos, faça pirâmides!”, em desdenhosa referência aos “gêneros menores”. Humilhado ao constatar que sua obra era uma padaria, Sabino consolou-se ao encontrar na história da literatura muitos faraós biscoiteiros, a começar por Machado de Assis. De fato, por definição, o cronista não pode ter a pretensão da glória literária, o que não significa que não nos maravilhemos com seus textos. Assim, o que parecem coisas opostas, de repente se confluem em pontos comuns. O deslumbre da pirâmide e o sabor do biscoito são caminhos distintos com finais semelhantes. Se me permitem a brincadeira, foi com a ingestão das madeleines, pequenos bolinhos de trigo, que o personagem de Marcel Proust mergulhou nas riquezas insuspeitas do passado.

O biscoito no cardápio de hoje é a crônica, cujo embrião foi importado por Francisco Otaviano em meados de 1800 do feuilleton francês. Não pretendo recuperar a história do gênero, mas me interessa um ponto em particular, que é a conquista da sua subjetividade. Ao longo do tempo, a crônica firmou na modernidade uma subjetividade própria. Ainda faz parte de seu charme dizer-se efêmera, destinada ao esquecimento, mas hoje já não se questiona a compilação de crônicas em livro, por exemplo, como o fazia o crítico Alceu Amoroso Lima, dizendo que “uma crônica, num livro, é como um passarinho afogado”. Aos poucos, essas questões foram sendo superadas, embora ainda se afirme, vez ou outra, inverdades poéticas do tipo “uma crônica não se faz, acontece”.

O ponto a que quero chegar é que vejo um gênero criando certa autonomia, transbordando das páginas dos jornais para arrebanhar outros meios, como os blogs. Se o jornal acabasse amanhã, a crônica viveria seu momento de luto, mas depois seguiria em frente. Na verdade, ela está atrelada ao jornal pela necessidade da frequência e pela ligação com o leitor, não por afinidade. Pelo contrário: o contraste entre a objetividade do jornal e a subjetividade da crônica lhe dá força para sobreviver, tal qual uma ilhota ficcional num vasto oceano informativo. É verdade que, às vezes, a notícia serve como mote de uma crônica, mas não passa de pano de fundo, dispensável. Todo indício de objetividade é um trampolim para a ficção, mesmo nas primeiras crônicas de Rubem Braga, um jovem autor ainda bastante jornalista.

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Humberto Werneck e Ivan Angelo (Foto de Isabela Benassi)

Aliás, é curioso observar como nosso jornalismo foi se reformulando. De uns tempos para cá, o olhar subjetivo conquistou espaço nas páginas, em detrimento da notícia rasa. É como se o leitor já não buscasse apenas o fato, que lhe é dado a todo momento mesmo a contragosto, numa violação noticiosa que vai do metrô às redes sociais. Ele está mais interessado em opiniões. Leve-se em conta que a internet não apenas estimula como abraça a capacidade crítica de cada um, convidando todos aos mais diversos fóruns de discussão e às terríveis caixas de comentários. Essa valorização da subjetividade é o que destaca uma repórter como Eliane Brum, por exemplo, tão interessada na vida de dentro quanto na de fora. E é o que permitirá, acredito, revitalizar a crônica literária, um tanto distinta, invariavelmente, daquelas da década de 50, que vibraram junto com o espírito da época. Hoje, os tempos são outros. Nos quais os textos de Humberto Werneck e Ivan Angelo, inovadores dentro de uma tradição, podem significar um princípio de renovação.

Humberto e Ivan são alunos da escola mineira de crônica, com especial apreço ao causo e em constante flerte com a narrativa. Diferente de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, que muitas vezes escreviam verdadeiros poemas em prosa, Ivan e Humberto buscam o lirismo em outras fontes. O arroubo poético, quase sempre dosado com humor, se dá pela experiência de vida, pela reflexão (muitas vezes de botequim), pelo descobrimento e sobretudo pela observação.

Sobre Humberto, destaco seu esforço quase flaubertiano de buscar sempre a palavra exata. Armado de todos os dicionários, traduz o gosto por questões vocabulares em muitas de suas crônicas – são curiosidades, definições e até revolta quando o caso é a falta de palavra. Humberto é aquele sujeito que aparece sempre com um achado lexical, o que não faz dele um dicionário ambulante de pedantismo, mas sim um almanaque vivo, bem humorado. A consequência disso, além do entretenimento do leitor, é a economia de espaço, o que é decisivo para o jornal – ele sabe, por exemplo, que pode-se substituir “sentir-se enjoado com a ingestão de muitas iguarias doces” por “arripunar-se”; ou, ainda, chamar a “borrachinha de vedação na porta da geladeira” de “graxeta”. Foi desse caldeirão vernáculo que surgiu a personagem Solange, prima sabichona que fala difícil e sabe o nome de tudo. Esse é outro feito de Humberto, aliás: reviver a crônica de personagens, meio em desuso desde Stanislaw Ponte Preta – com notável exceção a Luis Fernando Verissimo, que é um caso um pouco diferente, e por isso não será tratado aqui.

A prosa enxuta, como disse, é característica do gênero, mas se acentua na obra de Humberto, assim como na de Otto Lara Resende, outro “conhecedor dos segredos da língua” que também não fazia dela “instrumento de tortura”, nas palavras de Moacir Werneck de Castro.

Humberto, Ivan e eu, novamente (Foto de Isabela Benassi)

A respeito de Ivan Angelo, vale ressaltar sua condição rara de cronista múltiplo, isso é, aquele que consegue explorar os limites do gênero. Ivan vai de uma ponta a outra, aproximando-se ora do conto, ora da anedota. É um instrumento de muitas cordas, como diz o próprio Humberto. E assim como Paulo Mendes Campos, a coletânea de sua obra é bastante versátil, explorando inclusive questões formais que, a princípio, não combinariam com a crônica. Arrisco dizer que essa é uma herança que Ivan trouxe de sua experiência enquanto contista e, sobretudo, romancista. Afinal, só trinta e oito anos depois de estrear como escritor, Ivan passou a se dedicar às crônicas com frequência. É por culpa desses dribles de cronistas como Ivan, portanto, que a crítica costuma vacilar nas definições do gênero.

Um dos temas mais recorrentes em sua obra é o amor. Não o sentimento puro que aprendemos a banalizar, mas sua capacidade de mexer com a cabeça dos amantes. Os relacionamentos retratados vão também de um extremo ao outro: do primeiro toque de mãos tímido à morte planejada por envenenamento. Essa viagem no interior de homens e mulheres, quando mesclada a outros textos aparentemente prosaicos de cenas urbanas, nos leva a pensar sobre a infinitude do ser – porque a crônica faz de cada um de nós protagonistas em potencial de histórias extraordinárias. Talvez seja esse um dos pontos fundamentais de seu estabelecimento enquanto literatura.

Por fim, já me sinto culpado por tomar mais que os dois dedos de prosa convenientes à crônica, e passo a palavra àqueles que realmente sabem o que fazer com ela.

Os desencontros amorosos de Chico Buarque e Clarice Falcão

chico buarque

Folheando um livro sobre pinturas rupestres – aquelas primitivas registradas nas cavernas –, me deparei com uma gravura inusitada. Enquanto duas figuras copulam, num gesto que sugere bastante agressividade, uma terceira, mais distante, está com os braços abertos. É possível interpretar essa cena de diversos modos: um amigo disse tratar-se de um estupro, outro sugeriu o ménage, e eu, ingênuo, acreditei no amor. O terceiro sujeito está com os braços erguidos por espanto – não por felicidade, como enxergaram os amigos –, pois vê outro em seu lugar consumindo seu amor. “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucuras por uma mulher?” Fui longe, eu sei, mas a verdade é que o tema do desencontro amoroso é recorrente desde que se tem notícia da arte. A gente pode não desconfiar, mas os gregos também amavam, os egípcios traíam, os maias tinham dificuldade de se declarar. Dos primórdios do verso aos dias de hoje, ouve-se um constante lamento pelo outro. Com o perdão de pular uns quarenta mil anos de humanidade, escolhi duas canções recentes pra falar um pouco disso. Uma de Clarice Falcão, ainda novidade na praça, e outra de Chico Buarque, para quem o amor é um prato cheio.

pintura

De Chico, as opções são vastas. Poderia ter escolhido Noite dos mascarados, em que os amantes, totalmente opostos, deixam tudo de lado em nome da folia do carnaval; ou Sem Fantasia, de uma paixão rasgada, declaração proibida; ou, ainda, Pelas tabelas, uma divertida “crônica” sobre um casal perdido no meio da confusão das passeatas pelas Diretas Já. Sem muito motivo, peguei uma do último disco de Chico.

Essa pequena é produto de uma fase do compositor que começou, eu diria, com Paratodos, de 1993. De lá pra cá, Chico consagrou-se por completo como um músico maduro, atento ao silêncio do tempo, permitindo-se questões mais complexas, às vezes pouco “musicáveis” à primeira vista. Mesmo a simplicidade parece mais polida. Esse tratamento diferenciado se nota também através das melodias, que, em alguns casos, passaram a ser menos assobiáveis. Sobre isso, porém, não sei falar, pois não tenho conhecimento técnico sobre música. Em suma, não consigo imaginar muitas de suas últimas melodias em discos mais antigos.

O blues despretensioso pinta um relacionamento baseado na diferença. Logo nos primeiros versos, Chico dá o tom: ele, de cabelo cinza e tempo curto; ela, com tempo de sobra e cabeleira cor de abóbora. Não precisava o eu lírico se confessar para que nós entendêssemos que a coisa não poderá durar muito – ele, “cuidando dela que anda em outro mundo”, nem sabe direito o que ela fala, mas não se cansa de contemplá-la. Se houvesse uma versão com a visão feminina do relacionamento, imagino que esse doce desentendimento se reforçaria. Os ritmos descompassados me remetem à certa tarde de minha infância, em que me irritei com o gato da casa esticado ao sol enquanto eu me esforçava para terminar os exercícios de matemática. “Esse bicho aí parado, numa vida vazia de tomar sol”, pensei. De repente senti que o gato, me olhando, devia estar fazendo o mesmo julgamento: “esse bicho aí parado, numa vida vazia de somar números”.

Voltando à canção, é curioso notar como essa diferença se reforça em seu plano formal. A quantidade ínfima de rimas é sugestiva. Sendo a rima um recurso de identificação, de proximidade, sua ausência pode indicar um efeito oposto, sobretudo numa canção popular. É como se as coisas de fato não combinassem. Às vezes, a diferença sonora entre as palavras é tão pequena que pode-se cair na tentação de querer forçá-las um pouquinho para que rimem. É o caso de “sobra” com “abóbora”, “acorda” com “Flórida”. Chega a dar uma pequena aflição.

À época do lançamento do disco, houve quem criticasse o compositor por esse tipo de “deslize”. Disseram que rimar “sai” com “time” (do inglês) era forçar a barra. Qualquer sujeito um pouco mais sensato, no entanto, não poderia acreditar que Chico, com quase quarenta anos de carreira, tenha esquecido como se rima, de modo que o chute na trave é proposital. As coisas quase se encaixando me parece uma ótima metáfora para um relacionamento complicado – que, apesar de tudo, vale a pena.

clarice falcão

Clarice Falcão é (ou será, logo menos) uma das novas queridinhas da música brasileira. Ela ficou conhecida primeiro por sua atuação em esquetes de humor na internet. Com o violão e toda a inocência desse mundo, Clarice costumava cantar histórias absurdas, como aquela sobre jogar-se do oitavo andar em cima da pessoa amada que acabou de dizer adeus ao relacionamento: “E aí, só nós dois no chão frio / De conchinha bem no meio fio / No asfalto riscados de giz / Imagina que cena feliz”. Sempre narrando o inusitado de modo a transformar situações banais em cenas descabidas, Clarice deu consistência à carreira musical com o lançamento do disco Monomania. Seguindo o mesmo tom tragicômico, a sinceridade de suas letras chega a ter um apelo patético, reforçado pela exposição de tantas associações disparatadas – aquelas que a gente faz até com frequência, mas não comenta com ninguém. Seu disco, se filmado, daria uma comédia romântica para um sábado à tarde.

Tive uma surpresa ao ouvir o Monomania. Confesso que o fiz um pouco armado do preconceito que a Mallu Magalhães deixou em mim: “Lá vem mais uma menininha se fazer de inocente. A vida é muito curta para isso”. Mas com Clarice foi diferente, não se trata bem disso. Seu disco me mostrou que é possível fazer música assim a sério. Digo, uma canção aparentemente boba pode ter um significado maior, e, com sua simplicidade, transmite o recado muito bem. É o caso de Eu me lembro, cantada em dueto com Silva, outro compositor daquilo que, tendo surgido após a onda da “Nova MPB”, só poderia ser chamado de “Novíssima MPB” – e assim vamos, até alguém ter coragem de inventar algo melhor. Essa canção, inocentemente afável, dá voz a um casal relembrando a primeira vez em que se viram. Sua graça está na contradição das falas: para cada verso de um, existe um verso do outro que afirma algo completamente diferente. Enquanto ele se lembra de uma festa muito animada e de feijoada, ela recorda oito ou nove gatos pingados no salão e de presunto enrolado no melão.

Assim como na canção de Chico, o casal parece unido apenas pelo amor. A afeição é o ponto comum entre os dois mundos, que giram em órbitas fora de ritmo: de tempos em tempos, elas se cruzam. E no fim das contas, parece que esse é o único elo necessário. Não importa se foi numa terça ou numa quinta-feira de setembro ou de dezembro, o blues já valeu a pena.

A única reação possível para quem ouve essas canções é um sorriso meio perdido, um suspiro leve de quem se lembra de um momento bom, um desejo de que as coisas se acertem entre eles – e, por que não?, entre nós. Estarei sempre na torcida, sobretudo pelo camarada rupestre, que tem toda minha compaixão.

São Paulo, setembro de 2013

EU ME REFERI…

… à canção Nervos de aço, de Lupicínio Rodrigues.

… ao disco Paratodos, que é, para mim, o início dessa fase madura de Chico. Alguns “estudos” buarqueanos apontarão coisas distintas.

… ao disco Monomania, de Clarice, que pode ser comprado pelo iTunes.

… à canção Oitavo andar (Uma canção sobre o amor), de Clarice. O clipe, feito pelo pessoal do Porta dos Fundos, pode ser visto aqui.

… a Mallu Magalhães, uma menina chatinha que parece estar melhorando aos poucos – musicalmente, claro.

… a Silva, compositor e instrumentista capixaba, autor do álbum Claridão, também disponível pelo iTunes.

Ivan Angelo e a experiência da reescrita

Foto de Marcelo Min

Foto de Marcelo Min

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer” (Graciliano Ramos)

Não se sinta culpado se você nunca tiver lido Ivan Angelo, um de nossos maiores escritores em atividade. Mesmo sendo muito elogiado pela crítica – desde sua estreia em 1961 com o livro Duas faces, reunião de sete de seus contos e duas novelas de Silviano Santiago –, Ivan sempre foi meio recluso, sem muito gosto por entrevistas e avesso aos holofotes. Talvez porque ele seja, forçando o estereótipo, o mais mineiro dos mineiros que se mudaram para São Paulo na década de 60. Jornalista, Ivan participou de uma significativa experiência da moderna imprensa brasileira: “o então revolucionário Jornal da Tarde, criador de escola tanto na feição gráfica como no apuro do texto”. Sua função de editor, porém, o afastava do contato direto com o leitor. Sem fazer desse silêncio um charme de personalidade inacessível, parece que Ivan Angelo gosta mesmo é de escrever, não de falar.

Isso é constatável se olharmos sua carreira, mesmo que panoramicamente. Ivan não decepcionou os críticos que o apontaram como promissor em sua estreia: em 1976, publicou um dos mais importantes (e o mais notável, sem dúvida) romances de seu tempo. A festa, premiado com um Jabuti, é um livro de fôlego político, ambientado na ditadura militar e bastante marcado pelo clima opressor e violento. Mas diferente de outros tantos romances da época que hoje têm valor apenas enquanto documento histórico, A festa é, de fato, uma obra de arte – dessas que são capazes de “provocar arrepios cívicos e estéticos”, como escreveu Humberto Werneck, seu companheiro no Jornal da Tarde e nos cafés que tomam todas as quintas.

Um de seus aspectos mais chamativos é a estrutura, bastante experimental e recortada. Foi o crítico João Luiz Lafetá quem melhor a classificou: “romance-contos”. Os capítulos que compõem a obra podem ser lidos separadamente, pois são dotados de unidade, mas também “extravasam uns nos outros, como se compusessem um sistema de vasos comunicantes” (a expressão é do Lafetá). Alguns personagens aparecem em mais de um capítulo, mas o que atua como fio unificador porém não condutor é a festa anunciada – que, vejam só, nunca acontece. Trata-se, enfim, de uma literatura que somente um autor muito maduro e habilidoso, buscando um novo modo de narrar, saberia compor.

Usei a palavra “maduro” não por acaso, pois quero me deter em um episódio curioso da obra de Ivan Angelo. Publicado em 1986, o livro de contos A face horrível se encerra com uma valiosa experiência de reescrita, da qual todo aspirante a escritor poderá (deverá!) tirar proveito. O conto Dènouement (“desfecho” em francês) foi publicado originalmente em seu já citado livro de estreia. Aqui, 25 anos depois, ele volta a aparecer para, nas mãos do escriba experiente, desdobrar-se em mais dois: Entrevero do autor com seu conto, em que dispõe, ao lado da ficção juvenil, comentários cruéis e jocosos de uma leitura autocrítica; e Final, o conto totalmente refeito.

Tietando Ivan, no lançamento de seu "Certos homens", há alguns anos

Tietando Ivan, no lançamento de seu “Certos homens”, há alguns anos

Da leitura do original, vemos Libério, o narrador, angustiado com um impasse amoroso: sua esposa, Maria Lúcia, teve um caso com outro homem. No tormento psicológico do personagem principal, sua voz narrativa se divide em duas: uma se questiona e faz suposições; – ela me amava antes?, de quem é a culpa? – outra, ataca e refuta os questionamentos – ela é a culpada, seu idiota, claro. Basicamente, a primeira é emocional e ganha a simpatia do leitor, enquanto a segunda, expressando sua racionalidade num português excessivamente culto, o repele – um processo esquemático que nos remete ao anjo e ao demônio disputando o controle do homem. A junção das duas vozes retrata uma mente fervilhante que se prepara para um grande acontecimento.

Decidido, Libério convida Malu para um passeio em Congonhas, cidade que abriga os profetas esculpidos por Aleijadinho. Lá, surpreende sua esposa com a inscrição da estátua de Osaías: “Aceita a mulher adúltera e com ela tem novos filhos”. Descoberta e envergonhada, ela acaba revelando a trama secreta, digna de uma novela televisiva, que envolve, entre outras coisas, um amor jurado mas impossível na juventude. Vocês sabem: eles se amam, mas a vida os separam; eles se casam com outros, mas a vida os une. A discussão do relacionamento segue-se intensa, porém bastante artificial, como demonstra o pensamento de Libério:

“Preciso compreendê-la para não desprezá-la. Estou de tal modo ligado a ela que é impossível desprezá-la sem desprezar-me”.

O autor, aí, deixa escapar uma preocupação quanto à capacidade do leitor de compreender sua história, usando frases explicativas e francamente didáticas – como se isso suprisse uma lacuna técnica que não permitia o escritor inexperiente conduzir seus leitores somente através da ficção.

Nesse rodeio excessivamente interno, de muita pergunta e pouco gesto, é Libério quem sai perdendo, porque percebe que não poderia ter feito esse jogo humilhante com a esposa. Malu não quer voltar para casa e não pode continuar o relacionamento. Derrotado, Libério encontra a solução para o drama logo em seguida, na estrada: um caminhão enorme, contra o qual joga seu carro instintivamente. Dènouement tem, portanto, um desfecho dramático e excessivo, pois a morte pode ser sempre uma solução fácil.

O texto seguinte, Entrevero do autor com seu conto, é de pouca explicação mas de muito proveito. Trata-se do escritor mais velho apontando os defeitos – e alguns acertos – do mais novo. Das suas observações, a mais significativa me parece ser a seguinte:

“Bastaria dizer que o cara estava tranquilo e quando a mulher transou outro homem ele fundiu a cuca. Duas ou três frases, sem babaquices tipo ‘como poderia ela ter certeza dos meus sentimentos?’. O parágrafo parece arrumado para contar o passado das personagens, é narrativo demais e não deveria ser. Tem de funcionar por justaposição, a soma é que deve narrar e dar sentido”.

Está poupado o trabalho do crítico. Através de outros caminhos, Ivan chegou à mesma conclusão que o russo Joseph Brodsky quando disse que “O que torna uma narrativa boa não é a história em si, mas o que se segue a quê”. Aprendida a lição, Ivan Angelo aponta a necessidade de alterar tanto a forma quanto o conteúdo de seu conto, sem poupar-se de puxões de orelha que sofrem os irmãos caçulas.

Primeira edição de "A face horrível", de 1986

Primeira edição de “A face horrível”, de 1986

Final, o resultado desse exercício, é essencialmente diferente de sua matriz. A mudança mais notável é a linguagem, que abandona toda a pompa e os pronomes em segunda pessoa para tornar-se coloquial, fácil. Os devaneios de Libério recebem polimento: a dualidade das vozes internas desaparece, dando lugar a uma única, incerta, confusa, agressiva. As contradições do humano ficam claras e, por consequência, o homem fica exposto – não há espaço para a metafísica, o bem e o mal. O trecho que usei acima, para exemplificar o primeiro conto, se transforma no seguinte:

“Preciso é saber por quê. Conhecê-la melhor. Protegê-la”.

A economia das palavras e as frases curtas dão ritmo à escrita, que agora se faz numa cadência propícia ao conflito interno. Tudo vira mais palpável, mais verossímil, próximo ao homem real – algo com o qual o leitor pode se identificar. Basta pensar que Dènouement vira, simplesmente, Final. Ou, então, que o casal que antes se suicidava tragicamente, agora volta para casa brigado, em silêncio. É o que geralmente acontece com os pares que brigam, não? O que antes era uma questão de morte, passa a ser “uma questão de tempo, como um castigo”. Muito mais moderno, e profundo. E a inscrição do profeta, que funciona como síntese do conto, foi cortada pela metade: “Aceita a mulher adúltera”, apenas. Não é preciso mais do que isso – pelo menos para um escritor do nível de Ivan Angelo.

Essa prosa enxuta, longe de ser esturricada, é uma valorosa qualidade para o ofício de cronista que Ivan pratica com mais dedicação desde 1999, quinzenalmente, nas páginas da revista Veja São Paulo. Sobre suas crônicas, prometo dedicar outro texto, pois seria injustiça de minha parte querer abordar um dos maiores cronistas contemporâneos nesse dènouement – ou melhor, nesse parágrafo final.

 São Paulo, agosto de 2013

EU ME REFERI…

… a Silviano Santiago, escritor e crítico literário, autor do clássico Uma literatura nos trópicos.

… ao prefácio do jornalista e escritor Humberto Werneck para a coleção Melhores crônicas, da editora Global.

… à conferência de João Luiz Lafetá, saudoso professor e crítico literário, transcrita sob o título de O romance atual e publicada no livro póstumo A dimensão da noite, das editoras 34 e Duas Cidades.

… Joseph Brodsky, Nobel de literatura. A citação é do Marca d’água, um exercício de reflexão e imaginação sobre Veneza.

Recomendo a deliciosa matéria que Humberto Werneck escreveu sobre o Jornal da Tarde, da qual tirei uma citação sem dar o crédito; assim como essa entrevista feita por Rafael Rodrigues, do Paliativos, com Ivan Angelo.

Confusões literárias: Guilherme de Assis, Clarice Tauil e os três Rubens

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Não sei dizer se este é o Machado ou se sou eu

Eu devia ter uns quinze anos quando comecei a ler Machado de Assis pra valer, ainda com pouco gosto pela literatura. Naturalmente, eu não tinha maturidade suficiente para lidar com o texto, de modo que só compreendi o que me foi dado, o que estava à vista – o que é fatal para a leitura da prosa machadiana. Talvez fosse pensando um pouco nisso que Mário de Andrade costumava dizer que só se devia ler Machado depois dos trinta. Quase nada ficou dessa primeira leitura, portanto, mas o contato valeu pelo furor que senti: eu não entendia muito bem, mas sabia que diante de mim estava algo muito grande. Senti que era preciso difundir essa literatura, e, levantando a bandeira, decidi juntar todos os contos do homem num só blog, que ainda existe. Para minha surpresa, ele continua sendo bastante acessado, e vez ou outra recebo notificação de comentários – não costumo lê-los, porque são sempre muito genéricos, mas tive a sorte de não deixar passar as palavras de um distinto e anônimo senhor inglês, que disse ter ficado encantado com o texto, mesmo entendendo pouco a língua. Despedindo-se, me perguntou em tom de animada sugestão se não seria o caso de eu, Machado de Assis, juntar meus contos e publicar um livro. Seria um sucesso, garantiu. Esse deve ser o primeiro caso de um inglês que caiu no conto do Machado.

*

Meu exemplar de "Freedom".

Meu exemplar de “Freedom”

Sou um assíduo frequentador da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty. Não perco uma há oito anos – considerem esse número ser praticamente metade da minha vida. Em 2012, Jonathan Franzen, badalado escritor americano, andou palestrando por lá. Fatalmente, perguntaram a ele quais autores brasileiros já tinha lido – parece que essa é a nossa pergunta preferida de se fazer aos gringos. Depois de citar três nomes, Franzen lamentou nos ler tão pouco e pediu que o público sugerisse bons escritores nacionais. Como de praxe, terminada a palestra, dirigiu-se à mesa de autógrafos para atender a imensa fila de fãs. Por mera coincidência (não sou exatamente um bom leitor de “Liberdade”), eu era um dos primeiros da fila e me achei no direito de sugerir-lhe algo. Clarice Lispector, pensei, seria uma boa pedida. Arrumei um pedacinho mínimo de papel, onde escrevi “Clarice L.” e entreguei a ele. Mas Franzen, numa pressa muito americana, não me deu a chance de explicar que o “Lispector” tinha ficado de fora por falta de espaço e assinou logo meu exemplar de “Liberdade”, dedicando-o à Clarice. E foi assim que, jamais tendo publicado um conto, eu virei Clarice Lispector e entrei para a história da literatura. Ser Clarice dói menos do que parece, acreditem.

*

Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Rubem Braga parece não ter gostado muito disso

Para seus padrões interioranos, Taubaté é uma cidade com bons sebos. É de meu costume fazer um circuito por eles quando retorno à terrinha para as férias, para ver o que chegou enquanto estive fora. Às vezes, encontro raridades por um preço que chega a ser um insulto – quinze reais pelo primeiríssimo compacto do Chico Buarque, por exemplo. Não existe, por lá, ninguém que saiba muito bem o que está vendendo. Livro é livro. Assim, pedi a todos os sebistas taubateanos que me separassem tudo que tivessem de Rubem Braga. Alguns dias depois, passei recolhendo minhas encomendas, numa caminhada que termina no mercado municipal, imundo e caótico, exatamente como convém. No meu ponto de chegada, que é o sebo do seu Dito, perguntei pelos livros do velho Braga. Dito, um senhorzinho que disfarça a gagueira com um vasto bigode, me apontou uma pilha de livros no balcão. “Separei para você!”, disse, muito satisfeito. Eram todos títulos de Rubem Fonseca. Achei graça na confusão e a comuniquei ao seu Dito, que se justificou, dizendo que era quase a mesma coisa, e insistiu no erro, perguntando se não servia não. Educadamente expliquei que são autores muito diferentes, e que precisava mesmo era do Braga. Em desaprovação, seu Dito balançou a cabeça e sumiu, lentamente, pelo corredor de enciclopédias e dicionários. Alguns minutos depois, voltou assobiando com um livro na mão. Tratava-se de um Rubem Alves antiguinho, mas em bom estado, que eu não consegui recusar.

Ferreira Gullar e o osso de sua perna

(Foto de Gilson Camargo)

Foto de Gilson Camargo

Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

(Caetano Veloso)

A grande ambição do aspirante a crítico literário é, imagino, terminar um bom livro, suspirar, levantar-se da poltrona, debruçar-se na janela e sentir-se inquieto. Impregnado pelo que acabou de ler, ainda com as frases ecoando na cabeça, ele quer compartilhar com outros leitores suas descobertas e impressões, e para isso sente-se encorajado a escrever sobre a obra, numa vocação que é solitária por ofício, mas compartilhada, porque humanizante.

De modo que quando recebi meu primeiríssimo trabalho de estudos literários, fiquei empolgado, porém com medo – como convém reagir a toda grande novidade. A tarefa era analisar um poema do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar. Eu já tinha certa familiaridade com sua poesia, pois ele figurava no meu panteão de poetas prediletos; mas havia o receio de fazer uma análise, ainda que muito primária, por falta de tato – sempre fui melhor leitor de prosa. Por ser um dos poucos poemas que sei de cor, escolhi discorrer sobre “Acidente na sala”, o qual reproduzo aqui sem a formatação exata (as ferramentas do site são contra o verso livre):

movo a perna esquerda

     de mau jeito

e a cabeça do fêmur

                atrita

                com o osso da bacia

sofro um tranco

e me ouço

perguntar:

aconteceu comigo

ou com meu osso?

e outra pergunta:

     eu sou meu osso?

     ou somente a mente

que a ele não se junta?

e outra:

se osso não pergunta,

quem pergunta?

alguém que não é osso

     (nem carne)

     em mim habita?

alguém que nunca ouço

     a não ser quando

     em meu corpo

um osso com outro osso atrita?

Deixando de lado os recursos mais, digamos, primários da linguagem, como a aliteração e a rima, resta-nos ainda as inquietudes do poema – como, por exemplo, o que pode significar esse movimento de partir do mínimo (osso) para o máximo (ser). O gesto parece provocar no leitor uma angústia agridoce de saber-se parte de algo maior do que si mesmo. Se não sabemos nem dos limites do nosso próprio corpo, essa carcaça que invariavelmente apodrece, que poderemos saber do resto do universo?

Porque sim, nós somos o nosso corpo, é claro – mas nem tanto. Essa afirmação absurda pode ser pertinente se tomarmos como exemplo seu funcionamento. Que me corrijam os biólogos, mas se eu espetar o dedo em uma agulha, as plaquetas do meu sangue liberarão tromboplastina, que transformará a protrombina em trombina, capaz de agir sobre o fibrogênio para a fabricação de fibrina, proteína insolúvel que, por sua vez, irá formar uma rede para estancar o sangramento. Vejam, eu sou um mero cidadão que gosta de um pouquinho de leite em seu café, que guarda até hoje uma nota de um real na carteira, que sofre por amor e que fica melancólico durante os domingos – e ainda assim capaz das mais complexas reações químicas, sem nem ter consciência delas.

A poesia de Gullar, nesse livro especialmente, se expressa na ponte entre o ínfimo e o gigantesco, o aqui e o lá, o impossível e o improvável – o que acaba sugerindo a posição do homem neste Universo: somos heróis medíocres sem nenhuma odisseia para protagonizar. Estamos tão distantes da mosca, “cuja existência talvez dure / pouco mais de uma hora”, quanto da galáxia, “que demora 250 milhões de anos / para fazer / um giro / completo / em torno de seu eixo”. Insetos ou via láctea, pra gente tanto faz. E essa é a graça.

O incrível é que caiba poesia nesse vórtice da existência – onde uns apenas poderiam constatar tristeza e solidão. Alfredo Bosi, prefaciando o “Em alguma parte alguma”, ecoa muito propiciamente uma frase de Pascal: “Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie” (O silêncio eterno dos espaços infinitos me assusta, me disseram). Para entender um pouco melhor esses infinitos, tanto externos quanto internos ao ser, resolvi pedir uma entrevista ao próprio Gullar, que, sem saber quem eu era, me convidou para uma conversa em sua casa.

E assim fui ao Rio de Janeiro, pela segunda vez – a primeira, quase um ano antes, resumiu-se a um bate-e-volta para assistir o Fluminense empatar miseravelmente. Com apenas mochila nas costas e gravador no bolso, desci na rodoviária e liguei para um amigo, que havia concordado em ser meu guia desde que pudesse participar da entrevista. Ele me instruiu que eu o esperasse em frente ao Copacabana Palace. Assim, tomei um táxi que me cobrou o dobro para me deixar no hotel, onde havia uma multidão à espera de um tchauzinho da janela de não sei qual celebridade americana. Achei a situação patética; me pareceu muito desmedido torrar sob o sol (do Rio!) para ver o ídolo de longe.

Mesmo sem conhecer a cidade, me lembrei que perto dali havia um lugar melhor para se aguardar, e saí à procura de Carlos Drummond de Andrade. Caminhando pelo calçadão, percebi que o sotaque paulistano de meus pés apressados contrastava com o andar solto do carioca, que vai num molejo muito mais gingado, e me senti um pouco envergonhado. Talvez por isso, sentei-me ao lado da estátua de Drummond, que ouviu em silêncio tudo o que eu tinha para falar. Depois do estático esquenta literário, voltei ao Palace, onde meu amigo me esperava, e viramos na Rua Duvivier. Em frente ao nosso destino, um prédio muito velho, comuniquei a entrevista marcada ao porteiro, que apontou um interfone, onde apertei o quatro e depois o dois e esperei que uma voz rouca indagasse o “pois não”. Era o próprio Gullar, autorizando-nos a subir. No elevador, respirei fundo e encarei o espelho, pensando que todos aqueles fãs do Copacabana Palace deveriam ter inveja de mim, pois eu não só veria um ídolo como estaria protegido do sol.

O poeta nos esperava de porta aberta e, numa seca cordialidade, apertou nossas mãos e indicou as cadeiras. Murmurou qualquer coisa e sumiu na penumbra de um estreito corredor. Nesse momento, me senti inseguro, porque percebi que não estava preparado para a entrevista. Sem ter elaborado nenhuma pergunta muito boa, olhei ao redor em busca de assunto. Mas aquelas paredes abarrotadas de quadros quase sobrepostos, aquela luz muito fraca e aquele ar viciado me sufocaram. Tudo me pareceu muito sério e melancólico – com exceção da tevê ligada numa partida de tênis, que me fez rir porque imaginei Gullar, fã de esportes, praticando sua ginástica diária. Do breu, o poeta ressurgiu a passos largos e sentou-se diante de nós.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto do André Cruz.

A cara emburrada não condiz com a realidade. Foto de André Cruz.

Solícito, conversamos por quase duas horas a respeito de sua carreira (começou com versos alexandrinos), da influência de outros poetas (descobriu com Drummond que letras de macarrão cabem na poesia), de artes visuais (detesta as vanguardas que expõem larva de mosca no museu, vazias de significado), de amor (uma namorada russa que teve que esquecer), de política (envelheceu à direita, sem dúvida), de música (levou vinte anos e vinte minutos para botar letra em “O trenzinho do caipira”), de literatura (relê muito mais do que lê) e de sua produção (a divisão das páginas de sua obra completa pelos anos de atividade é algo perto de dez páginas por ano).

Percebi que Gullar insistia em alguns temas, bastante presentes em sua obra, sobretudo no “espanto” – que é uma tradução que encontrou para a surpresa, o inesperado, as infinitas possibilidades e probabilidades da vida. É esse o maior combustível de sua poesia, costuma dizer. Lembro-me especialmente de “Abduzido”, que nasceu quando o poeta, levantando-se de madrugada, acendeu a luz do banheiro e viu o próprio rosto no espelho: “deparo-me / comigo / em frente a mim / como se fosse um outro: / estarei noutro?”. Das coisas mais banais brotam profundas indagações. A repentina descoberta da própria cara, a mesma desde sempre, é ponto de partida para questões existenciais presentes em todo o livro, não por descuidada repetição, mas por curiosa e inesgotável investigação. Afinal, um homem passa mesmo a vida escrevendo sobre dois ou três assuntos – são os temas que o espantam até o fim – e o resto é pura distração.

São Paulo, 3 de agosto de 2013

EU ME REFERI…

… À canção “Livros”, de Caetano Veloso, que me serviu de epígrafe.

… Aos poemas “Acidente na sala”, “O tempo cósmico” e “Abduzido” do livro “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar.

… Ao prefácio de Alfredo Bosi, crítico literário, para o mesmo livro.

… A André Cruz, meu guia carioca e mestre em literatura brasileira e teorias da literatura pela UFF.

… A Carlos Drummond de Andrade, poeta que vocês conhecem muito bem.

… A Blaise Pascal, filósofo francês.

Agradeço a Guilherme Chaves por me emprestar o livro e a Camille Lohmeyer pela tradução.

O olhar certeiro de Antonio Prata

(Foto de Tomás Rangel)

Foto de Tomás Rangel

Muita gente já escreveu sobre a crônica e até agora não chegamos a conclusões muito sólidas. Parece que, às vezes, o gênero faz questão de driblar os teóricos e reinventar-se, adaptando-se a diferentes situações. Filha do jornal com a literatura, alguns consideram que puxou o pai e é, como ele, fadada ao esquecimento. Outros apontam que não é bem por aí, que a mãe teve um papel forte em sua criação e que a crônica pode resistir ao tempo quando flerta com a poesia, por exemplo, transformando-se em algo maior. A verdade é que, desde sempre, poucos tiveram essa capacidade, e talvez por isso muitos digam que a crônica literária corre risco de extinção com tantos primos distantes se apossando de seus espaços, inclusive de seu nome – são os editoriais, as reportagens, os diários, as colunas sociais, as crônicas esportivas etc., gêneros aparentados, mas só do lado paterno; sem nenhum fôlego literário.

Mais otimista, prefiro não montar um dos cavalos do apocalipse – que procriaram e hoje são mais de quatro – e sair anunciando o fim da crônica. Pelo contrário: eu a vejo ainda saudável, com terra nova e fértil pra cultivar. O argumento principal dos que a vêem claudicando é que há algumas décadas a crônica era exercida por muitos dos grandes nomes da nossa literatura e tinha espaço em todos os grandes veículos impressos. Dizem que, atualmente, a crônica perde tanto em número quanto em qualidade, mas eu me pergunto se essa sensação não estaria um pouco condicionada pelo tempo. Vendo as excelentes coletâneas dessa época passada, tem-se a injusta impressão de que não chegaremos lá, com tanta bobagem que é publicada atualmente. Mas é preciso ter calma e entender que isso a que temos acesso é o que sobreviveu à infalível peneira do tempo, são as pedras lapidadas. Pois o que não prestava dos jornais de antigamente já forrou muita gaiola, e hoje não resta nem uma pontinha reciclada daquela celulose. O mesmo acontecerá no futuro – todos esses que aí estão atravancando nosso caminho, eles passarão – de modo que a peteca não cairá tão cedo.

Do argumento contrário ao qual me referi, há um ponto inquestionável, que é o numérico: atualmente, não há tantos cronistas em atividade. Acho que os inquietos do coração, ótimos cronistas em potencial, agora têm muitas outras possibilidades para aplacar a alma. Mas o ponto sobre a qualidade é refutável: temos ótimos cronistas já maduros que não devem nada às gerações passadas – com exceção feita a Rubem Braga, claro, que é um acontecimento insuperável. Pra reforçar essa já sólida linha de frente, vejo se aproximar um valoroso pelotão de gente jovem (ou apenas mais jovem, em alguns casos). Sobre esse grupo, gostaria de dedicar um texto exclusivo, mais detido, de modo que, para evitar que este aqui vire uma tese de mestrado, vou me limitar a falar de apenas um deles: Antonio Prata – que na verdade nem é tão novo assim, pois escreve profissionalmente há mais de dez anos.

Antonio tem à disposição muitos dos ingredientes da crônica. Não cairei na tentação de listar as características que um cronista deve ter, mas estar atento às coisas em volta é condição essencial e por isso mesmo primária. Sem o olhar curioso e ligeiro que percebe detalhes das situações, acho que não é possível fazer crônica. É esse tato apurado que, aliado à capacidade técnica do escritor, vai garantir a malemolência do texto, que vai dar a ele o ritmo e o tom necessários pra ganhar ares de conversa franca, de papo furado, de prosa informal. Eu estaria me repetindo em vão ao dizer que Antonio Prata tem essa intuição de artista, mas acontece que ela foi posta à prova e quero relatar o fato: certa vez, convidei Antonio, Humberto Werneck e o professor Augusto Massi para um evento na Universidade de São Paulo. Era uma homenagem ao centenário de Rubem Braga, e por isso mesmo achei que convinha tocar a mesa em caixa baixa – não combina palestrar sobre crônica cheio de pompa. Tinha que ser meio de improviso, e uma maneira de me preparar para isso era estar despreparado. Sem resumos ou pesquisas, eu conduziria a conversa ao rés-do-chão. De última hora, no entanto, o mediador inexperiente sentiu o calafrio da responsabilidade e convocou todos para uma conversa. Sentamos os quatro para apertar parafusos e combinar alguns sinais, que conduziriam nossas encenações de acordo com o retorno da plateia, que, invariavelmente, ou boceja ou endireita a coluna pra prestar atenção.

Antonio, Humberto, eu e Augusto

Antonio, Humberto, eu e Augusto (Foto de Milena Varallo)

Humberto, entrevistador de vasta experiência, estava me passando uns truques quando uma mulher pediu licença, interrompeu o comitê, me desejou boa sorte e disse que já ia pro local, para garantir uma boa cadeira. Terminada a brevíssima digressão, Antonio sorriu e disse “Pode deixar, Guilherme, já entendi tudo. Eu vou me guiar por essa menina. Enquanto ela estiver sorrindo, sei que posso continuar falando. Se começar a mexer no celular, eu passo a bola”. Pois vejam só: Antonio propôs usá-la como referência porque percebeu que eu estava apaixonado por ela, antes de eu mesmo ter me dado conta disso. Enquanto em mim os sentimentos se confundiam, para o cronista já estava tudo muito claro.

Qualquer pessoa poderia ter chegado à mesma conclusão se eu tivesse declarado alguma obviedade ou começado a babar em estado catatônico, trocando substantivos comuns pelo nome dela. Mas só um exímio observador conseguiria desvendar o caso em segundos, tendo como pista apenas alguns gestos pequenos – o toque das mãos, o olhar perdido, o sorriso meio bobo e o breve suspiro que devo ter confessado quando ela virou as costas.

Outro dia, num restaurante com amigos, esperávamos o garçom quando um dos nossos chegou com o jornal aberto e disse: “nasceu a filha do Antonio Prata”. A crônica sobre Olivia foi passando de mão em mão, e, depois da leitura geral, começamos a debatê-la – afinal, é isso que os estudantes de Letras fazem enquanto a cerveja não chega.

O placar final foi uma goleada favorável, mas uma das bolas acertou a trave: “o Antonio tem uma estrutura repetitiva”, disse um deles. Na hora, pensei que, de fato, um dos maiores desafios do cronista é driblar alguns clichês que costumam se oferecem facilmente pra encerrar uma crônica. Acabei concordando, mas quis entender melhor. O goleiro adversário disse que Prata tem um esquema predileto, que é, a certa altura do texto, fazer um movimento em direção oposta à realidade, em ritmo crescente. Como ilustração, leu em voz alta o trecho da citada crônica em que o pai cola a boca na barriga da mãe e fala ao bebê sobre “o sol, a praia e a cachoeira, a girafa, o pinguim e o canguru, o doce de leite, a manga e o leitão, Toy Story 1, 2 e 3”. Em suma, disse que na caminhada rumo ao absurdo, o cronista vai muito longe e tropeça. Isso é, na frase acima, a partir de “manga”, os elementos citados causam desconcerto no leitor, porque não são coisas do universo dos bebês. O mesmo acontece quando Bill Clinton e Moraes Moreira aparecem numa frase iniciada com “você” e “sua mãe”. Esse recorrente processo esquemático, concluiu meu amigo, funciona como um ralo para a crônica, por onde se esvai a arte. Eu ia respondê-lo, mas a comida veio junto com a conclusão, e a fome falou mais alto.

Mais tarde, com a ideia cozinhando na cabeça, cheguei à conclusão que essa pequena escalada absurda não é ralo nenhum. Não é um esquema, pois sua finalidade não está nela mesmo; nem é mecânica, porque costuma vir dosada e na hora certa. É apenas mais uma das artimanhas do cronista, que leva o leitor na lábia até a beira do precipício e faz que vai se jogar, pra em seguida segurá-lo pela mão e dizer “calma, não é nada disso”, reconduzindo-o em segurança à normalidade. Talvez seja a essa manha que Davi Arrigucci Jr. tenha se referido quando disse que Antonio Prata é “um notável cronista do absurdo, das miudezas malucas do cotidiano”.

Vejo esse recurso mais como marca autoral, um tipo de assinatura que se detecta na obra. Não quero ficar teorizando sobre processos criativos, mas há uma diferença entre algo que é mecânico e algo que não é. Não é preciso dizer, por exemplo, que aquela melodia é do Tom Jobim. Isso a gente já sabe, intuitivamente. Assim, os primeiros acordes nos remetem não apenas a uma agradável combinação de notas, mas ao universo particular de Tom. O lado “artificial” se nota em algumas das letras dadas a essas melodias na época da Bossa Nova, por exemplo. Muitas vezes, evocar a mulher, o amor, o sorriso e a flor pode ser apenas uma solução prática, e por isso vazia de sentido poético.

Não é o caso de Antonio Prata, definitivamente. Na última edição da revista Piauí, o jornalista Mario Sergio Conti publicou um perfil a respeito do cronista. Lá pras tantas, Conti enumera algumas dificuldades que estariam se impondo à crônica atualmente – a crise da imprensa, a internet, a televisão. Não concordo com elas e, como já disse, acho que a crônica está na contramão da imprensa, retomando seu espaço e seu prestígio de décadas atrás. Mas o que me incomodou mesmo foi esse esforço vão de assombrar o autor, como se fosse um falso amigo que quer aconselhar, pero no mucho: “olha, não faça romances, não continue se metendo com a televisão”. Parece uma armadilha. Eu espero que essa semente não vingue, pra mais adiante ninguém querer dizer que Antonio Prata é o cronista da televisão, que seu romance é uma crônica gigante ou maldades similares.

Trata-se, afinal, de um artista maior do que sua assinatura. Não morrerá sufocado, preso ao lugar-comum que criou, embora parte da crítica se esforce para etiquetar tudo, mesmo quando não convém. Esses são os ingênuos. Os mesmos ingênuos que reduzem Van Gogh a “pintor do amarelo”, porque não entendem que o amarelo de suas telas é muito mais do que um pigmento, transbordando qualquer noção de cor – ainda que alguma loja de tintas venda latas de “Amarelo Van Gogh”.

É por isso que Antonio Prata não ficará como o cronista do pequeno absurdo, o cronista da classe média, o cronista meio intelectual, meio de esquerda; mas ficará, com certeza, como o cronista dessa geração.

p.s.: Antonio, não deu certo com a menina; como você sabe, existem os outros.

Taubaté, 19 de julho de 2013

EU ME REFERI…

… ao “Poeminho do contra”, de Mário Quintana.

… à crônica “Sobe o pano”, do Antonio Prata, publicada na Folha de S. Paulo.

… à crônica “Os outros”, do Antonio Prata, publicada no Estado de S. Paulo.

… à orelha do livro “Meio intelectual, meio de esquerda”, escrita pelo professor Davi Arrigucci Jr.

… ao ensaio “A vida ao rés-do-chão”, escrito em 1980 pelo professor Antonio Candido, ainda uma das melhores páginas teóricas sobre a crônica.

… a Humberto Werneck, escritor, jornalista e cronista dominical do Estadão, autor da coletânea “Boa companhia: crônicas”.

… a Augusto Massi, professor de literatura brasileira da USP, que organizou o livro “Retratos parisienses”, com textos do velho Braga.

… ao perfil “No epicentro da barafunda”, que o jornalista Mário Sérgio Conti escreveu sobre Antonio Prata, pra revista Piauí.

E, por fim, tenho a impressão de que essa interpretação do amarelo foi Sartre quem fez, quando disse que, nas telas de Van Gogh, o amarelo já não era amarelo, era melancolia.

Agradeço a Guilherme Magalhães e a Claudio Leal por me arrumarem a matéria da Piauí.